domingo, 1 de novembro de 2009

SOBREVIVENTE?



Fez um quadro muito feio,

Fundo preto, pintado de vermelho,

Parecia sangue escorrendo,

Pendurou na parede do quarto,

Colocou luz fraca indireta,

Como num troféu...

A única luz que existia no quarto,

É como se abrisse a janela,

De noite,

No meio do temporal,

E a única luz fosse do raio,

Clareando mal e mal

Passava horas olhando,

Talvez esperasse nele se perder

Retratara o Holocausto,

E o sangue vertia, em neon

Sentia o cheiro de morte,

E via os tantos horrores

Lembrava de uns poucos amigos

Do seu pai e sua mãe,

De quem foi separado tão cedo,

Foram tão poucos que escaparam,

Talvez fosse melhor ter morrido

A lembrar pra vida inteira,

Como a vida é longa pra quem sofre!

Pensava, talvez fosse castigo,

Talvez fosse missão,

Quem sabe loucura...

Viu tanta gente partindo

Assistiu tanta destruição

Vidas jogadas fora

Abandonadas

Crianças morrendo, chorando fome

Anciãos definhados, morrendo ao relento

E as filas da câmara de gás,

- TODOS PARA DESINFECÇÃO!!!

Nus, gelados,

Cobrindo seus pudores com as mãos,

E de lá ninguém voltava,

A não ser na chuva de cinzas

Que se espalhava por todo lado,

Como lembranças, como saudades

E ali estava ele, o pobre artista insano,

Retratando suas memórias

Negras, úmidas, fétidas,

Cheias de gritos de horror,

Só que agora sem arames farpados,

Sem cercas eletrificadas

Olhadas pelo lado de fora,

Separado pela distância do tempo,

Que na verdade nunca passou,

Que nunca apagou,

Ouvia o desespero das vozes gritando,

Em uníssono na madrugada insone,

Talvez se sentisse culpado por viver

Mas, nunca foi menos prisioneiro

Só que, da vida...

Vera Celms


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