domingo, 29 de novembro de 2009

AGARRADO A CRUZ



As travessas daquela avenida,

Tantas vezes cruzei,

Sob as fracas luzes da tal avenida,

Quantas vezes passei,

Mas nunca tão fracas

Nunca oscilaram tanto,

As sombras das arvores parecem maiores,

Parecem vultos,

Assustadores, apavorantes,

O vento movia folhas,

Galhos enormes,

Que pareciam homens

Que pareciam monstros...

Ao longe formavam-se imagens,

Cenas, inúmeros personagens,

Alguns malvados, dementes,

Outros tantos machucados, doentes,

Uns tantos capengas,

No momento seguinte parece que não respiro,

O ar se torna pesado e difícil,

A visão turva, incerta...

Sem noção de distancia,

Parece que as arvores estão vindo ao meu encontro,

Procuro desviar, e elas também desviam,

O passo incerto, a mão à frente protegendo o rosto,

Aproximo a mão dos olhos evitando o impacto,

E vejo na mão agora, o que me parece sangue,

E um volume que incomoda mais que pesa,

Ao abrir os olhos, identifico uma massa pulsante,

Tenho na mão um coração humano, horripilante,

Aos meus pés descansa um corpo dilacerado

Solto de sobressalto e empreendo a fuga, desesperado

Completamente atônito, aflito, e confuso,

Dou de encontro numa árvore,

Imaginando por um momento estar seguro,

Estou abraçado agora com um ser obscuro,

Que me envolve com uma espécie de manto sujo,

Num movimento me liberto, brusco...

Só que meus braços e vestes,

Estão agora, impregnados de vermes,

Nojentos, pútridos, fétidos,

Tudo parece parte de uma cena surreal,

Um pesadelo, um suplicio sobrenatural,

Minha cabeça já não identifica mais o que é real,

Corro então numa legião de iguais, é infernal!

Como se todos os meus sentidos houvessem me multiplicado,

Se chocam, indo cada um pra um lado,

Sujos, mancos, esfarrapados, ocos,

Nada sinto, nada faço, senão fugir dos loucos

Olho para todos os lados,

É um corre corre de mutilados,

Avançando contra o que parece uma tempestade,

Trovões ensurdecedores, raios apavorantes,

E de repente, após um raio, dores lancinantes,

Não vejo nada mais,

Levo as mãos aos olhos, estou sem meus orbitais,

Surdo, cego, manco e louco,

Correndo na tempestade, deve faltar pouco,

Pouco pra onde, pouco pra quê?

Sinto, ou pressinto cruzar um portão,

Além dele uma quietude morna, úmida vem do chão,

É como se o calor evaporasse de uma só vez o temporal,

Caminho quase rastejante e identifico um lugar visceral,

Entendo ser um cemitério, ou o que dele sobrou...

Túmulos, mato, ossos, vasos, foi para onde o vento me levou...

Assustado, penso em correr, mas sou parte da paisagem,

Por pior e assombrosa que seja, deve ser o portal da passagem,

Me choco numa peça enorme de granito, que entendo ser uma cruz,

Embaixo dela a figura de um homem, que só pode ser Jesus,

Numa possível réplica do Sacrifício, do Calvário,

Tento me agarrar, escorrego, para o fundo do meu fosso mortuário...


Vera Celms


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