segunda-feira, 19 de outubro de 2009

RAIOS E TROVÕES

Lamituh desejava partir. Sabia que não fazia parte deste mundo, não se sentia em casa. Nada a encantava, nada a aprazia, não conseguia se interessar por nenhum assunto.

Seria apatia? Seria só depressão?

Já havia consultado médicos os mais diversos. Neurologistas, psicólogos, psiquiatras... Já havia consultado a opinião de religiosos, de seitas, de comunidades, de curiosos, feiticeiros, bruxos, enfim, e ninguém sabia lhe dar uma direção.

Lamituh via sombras, vultos negros que levitavam soltos pelas ruas. Vultos humanos, animais e até nas plantas dizia conseguir ver a energia.

Era muito comum vê-la andando pelas ruas e de repente voltar-se como quem tivesse sido surpreendida por alguma presença que só ela via, como que assustada pelo movimento repentino tão próximo.

Nas pessoas costumava ver sombra.

Nós, ‘simples mortais’, vemos a sombra das pessoas em função da posição da luz. Lamituh vê sombras em todos os lugares, o tempo todo, como que vultos que acompanham as pessoas bem de perto. Mas que na verdade são elas mesmas, formando meio que uma parceria inseparável e assustadora.

Deve ser de fato difícil, ver sombras o tempo todo. Reflexos da nossa imagem em negativo, que nos acompanham diuturnamente.

Lamituh tem essa condição como normal. Narra muitas vezes traços da personalidade das pessoas, sem mesmo conhecê-las, a primeira vista. Segundo ela, a sombra das pessoas, revela com precisão, determinados detalhes que a maioria das pessoas só poderá ter conhecimento após anos de convívio.

Certa vez apresentei Dinobil a ela. Era um amigo querido, de pouco tempo, mas com muitas afinidades. Entretanto, não sabia explicar porque não conseguia visitá-lo em sua casa. Havia sido convidada inúmeras vezes, mas sempre de ultima hora, algo acontecia e acabava eu não indo, e também não conseguia recebê-lo em minha casa.

Todas as vezes que planejava receber Dinobil em minha casa, achava que a casa não estava em condições de receber visitas; ou estava suja, ou estava bagunçada, ou não tinha nada a oferecer a uma visita e sem dinheiro para compras. Enfim, nossa amizade era sempre em programas fora de casa; restaurantes, bares, teatro, cinema, festas de aniversário, mas nunca em casa.

Quando Lamituh olhou Dinobil pela primeira vez, notei que sua antipatia tinha sido gratuita. Ela sempre fora muito simpática, educada e sociável, porém, com ele ela lhe cumprimentou de longe, sem ao menos um aperto de mão e procurou logo um pretexto para ir embora. Estranhei, mas apesar de nada ter entendido, continuei andando com ele pelo Jardim Botânico, onde tínhamos nos encontrado com Lamituh, sem mais pensar no assunto.

Notava que todas as vezes que a convidava para alguma coisa, ela aceitava, salvo raras exceções, para festas e reuniões ou qualquer outro programa, o que me deixava extremamente feliz, pois apesar de simpática e sociável, procurava não estreitar muito os laços de amizade. Me sentia privilegiada.

Entretanto, depois que Dinobil começou a freqüentar as reuniões e passeios comigo, Lamituh começou a se esquivar. Tinha sempre outro compromisso, não se sentia bem, no ultimo dos casos, estava com dor de cabeça ou tinha acabado de encontrar alguém um pouco antes com quem havia marcado uma conversa ou um café e se eximia de participar.

Um dia perguntei a ela diretamente sobre essa questão e ela foi taxativa ao responder, sem nenhum rodeio: - ELE NÃO TEM SOMBRA...

Pasmei! Como pode alguém não ter sombra?

Então ela me informou, que pessoas que não tem sombra, não são pessoas normais e muito menos confiáveis, pois não expõe suas características ou sua personalidade, e ela entendia que alguém só podia ocultar aquilo que não deve ser visto, voluntaria ou involuntariamente.

Passei tempos pensando em tudo isso e claro, achava muito absurdo.

Um dia, Dinobil estava indo para o trabalho enquanto se anunciava um temporal. Apressado, tanto pelo tempo apertado que tinha quanto pela proximidade da chuva, foi atacado por um raio que jogou-o no chão sem vida, fulminantemente.

Quando Lamituh ficou sabendo do ocorrido, comentou:

- Viu? Não disse que não gostava dele? Que tinha algo de errado?

- Como assim? Foi um acidente...

- Acidente? Você chama a isso de acidente?

- E o que mais seria?

- Uma providência divina. Deus tira repentina e abruptamente essas figuras de cena para evitar

maiores problemas.

- Não fala besteira, eu estou triste, era meu amigo. Como pode dizer isso de alguém que nem

conheceu?

- E nem ia conhecer... ele jamais ia se deixar conhecer.

- Como assim? Eu o conhecia e ele era meu amigo.

- Como era a casa dele? Onde era? Com quem ele vivia?

- Nós fomos amigos por pouco tempo, não houve oportunidade de freqüentarmos a nossas

casas... onde era? eu não sei, e ele vivia com... ah! Sei lá... com quem ele vivia... que coisa!!!

Comecei então a relembrar que nunca conseguira ir a casa dele e nem ele a minha. Seria por isso que nunca tinha perguntado onde era a casa dele?

Verdade! No enterro dele não vi ninguém que se apresentasse como parente dele, ou afeto... só amigos do trabalho, vizinhos, segundo me falaram...

Ah! Mas não vou ficar agora tentando imaginar nada...

Foi inevitável questionar de Lamituh o que ela pensava ou sabia acerca de pessoas como ele.

- Olha, vou explicar de uma forma bem fácil de você entender. Ele na verdade não era

exatamente uma pessoa normal...

- Como assim, não era uma pessoa normal?

- Ele era de certa forma... hummm... um demônio.

- Hahahá... Dem..Demônio? que quer dizer...

- Conheci uma pessoa assim uma vez. Seu pai era uma pessoa ainda mais assustadora que ele, e insistia em que ele lhe desse netos DE SANGUE PURO.

- SANGUE PURO???

- Sim, o pai dele dizia que ele tinha de ter um filho com alguém do mesmo sangue, para que

não perdesse a pureza da hereditariedade, como se houvesse nobreza, que não pudesse ser

quebrada a linhagem.

Um dia, o pai o chamou e disse que tinha consultado o Oráculo e que havia sido revelada a

mulher, com a qual deveria “acasalar”. Essa mulher era sua irmã...

- Nossa! Que horror!

- E logo em seguida ele entrou num estado de torpor tão grande que não só não relutou contra

a possibilidade, contra a idéia apresentada, como tomou a irmã nos braços e começou a

beijá-la... como que num transe...

Só que aí, de repente, no meio de um dia de sol, sem nenhuma explicação...

ribombou um trovão ensurdecedor que fez com que ele saísse do torpor.

Olhou para o pai, olhou para a irmã, com uma expressão de deboche no rosto, pediu

desculpas, disse somente “LIVRE ARBÍTRIO”, e se matou com um tiro na têmpora. O pai

sofreu um ataque cardíaco e morreu também e sua irmã foi internada alguns dias após no

manicômio da cidade onde permanece até hoje, 5 anos depois.

- Tudo bem... a história que me contou agora, é apavorante, mas o que tem a ver com Dinobil,

que morreu por um raio?

- É um fenômeno da natureza que agiu, desencarnando ele, assim como a história que lhe

contei. A única diferença é que naquele caso, o rapaz acordou para a razão pelo trovão e seu

amigo já foi levado pelo raio instantaneamente, talvez o risco fosse maior.

Se é verdade o que Lamituh me disse não sei, mas aquilo ficou martelando na minha cabeça sem parar. Um dia ainda vou falar com ela a respeito disso novamente e vou tentar entender isso de uma vez por todas...

Passou muito tempo. Uns meses depois, encontrei Lamituh ao acaso novamente no Jardim Botânico, onde sempre fazia caminhadas. Só que, desta vez estávamos as duas sozinhas e conversando fomos caminhando juntas. Sentamos então na grama pra poder descansar um pouco, ameaçava chuva pesada, mas nenhuma de nós estava disposta a fugir da chuva e ficamos ali conversando por mais um tempo.

Começou o vento de temporal. Folhas voavam por todo lado, poeira levantava do chão com a força do vento, o céu escureceu como se estivesse anoitecendo no meio da tarde. Estava uma tarde de fato sinistra, apesar de que sempre me excitou muito os momentos que antecedem as tempestades, sinto até ofegar, um misto de emoção e medo.

De repente, no meio daquela “demência “ da natureza, começaram os clarões de raios a uma certa distância e foi se aproximando... se aproximando e então começaram também os trovões, nervosos, assustadores... e sem que eu pudesse acreditar... um raio caiu em nossa direção, bateu na árvore, desprendendo um galho enorme, que caiu sobre a cabeça de Lamituh, M A T A N D O – A F U L M I N A N T E M E N T E !!!

Vera Celms


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