domingo, 4 de outubro de 2009

MEMÓRIA DE ALZIRA



Toda vez que Alzira passava nervoso tinha ausência de memória.

Não sei se é ausência de memória, se é desmaio, se é um transe ou uma espécie de delírio ou coma. Desta vez se encontrou andando pela estrada escura. O céu nublado, vento de temporal se aproximando, clarões de raios bem próximos, fazia com que ouvisse ao longe o barulho dos trovões.

O temporal que se aproximava era no mínimo assustador...

Não sabia onde estava, nem pra onde ia e nem de onde tinha vindo. Era como se andasse dentro da sua ausência em busca de si mesmo.

Sentia seu corpo pesado, como se estivesse com inchaço pelo corpo todo. Praticamente não andava, se arrastava.

O vento forte parecia desequilibrar seus passos, mas continuava andando mesmo assim, no fundo tinha esperança de lembrar de alguma coisa de repente, ou de acordar de verdade num lugar conhecido.

Usava uma camisola branca longa, como do Hospital onde passou grande parte de seus dias.

Imaginava que naquele momento, se alguém a visse, pensaria ser ela uma assombração. Os cabelos longos, soltos e desgrenhados, deviam naquele momento lhe dar um ar de louca ou de doente. Se sentia muito mal naquele momento.

Continuava andando quase que por inércia. Não sabia onde chegaria por aquela estrada, mas temia parar e se perder, ou cair, ou desaparecer definitivamente. Enquanto sentia seu corpo, suas pernas, imaginava estar viva em algum lugar e por isso alguém poderia encontrá-la.

Não sabia há quanto tempo estava naquela estrada e muito menos ainda naquela situação. Pelo cansaço que sentia, imaginava estar andando há horas, ou dias... não sabia se aguentaria por muito tempo mais, mas continuaria andando.

O vento agora começava a levantar poeira vinda não sei de onde, que embotava seus olhos dificultando ainda mais sua caminhada. Já sem forças, cambaleante, sentiu uma forte dor no pé e sem conseguir manter o corpo, caiu, rolando barranco abaixo. Não tinha forças para se levantar e deixou-se ficar ali...

Tentava se mexer sem sucesso, estava imóvel, inerte. Abriu os olhos e inexplicavelmente estava amarrada a uma cama, com uma espécie de pulseiras de couro, com grandes fivelas.

Não sentia nenhuma parte do corpo, como se estivesse completamente dormente, ou morta. Mas, se estava morta, porque amarrada? Esse pensamento fez com que concluísse estar viva. Lembrou neste momento da dor que sentira no pé. Era a ultima coisa da qual lembrava antes da queda. Mas, não conseguia sentir o pé.

Pelo menos não doía mais. Relaxou o corpo, mesmo porque não adiantava lutar, nada sentia pelo corpo, como poderia lutar se sentindo tão inerte?

Tentou gritar, mas a voz não saiu. Mesmo que tivesse conseguido, aquelas paredes pareciam de aço... acho que ninguém poderia ouvir.

Nestes meio pensamentos deve ter adormecido, ou desmaiado de novo, ou voltado àquele estado letárgico.

Devia estar sonhando, ou lembrando de alguma coisa, ou tendo algum tipo de alucinação. Lembra de ter tido alucinações no Hospital. Mas, eram coisas horríveis, sentia como se estivesse caindo de um precipício amarrada de ponta cabeça, ou sendo arrastada por animais ferozes, ou sangrando a quase morrer, ou fortes dores, enfim, e o que via agora, eram crianças com as quais brincava, via sua mãe adotiva, e seus irmãos ao longe olhando sua alegria.

Alzira fora separada de seus irmãos ainda muito pequena e procurava agora lembrar da sua história. Sua mãe ficou viúva antes de seu nascimento e vivia pedindo esmolas na rua para sustentar os filhos, quatro ao todo, três meninos e ela. Certa vez, passou na casa de uma mulher, grisalha já, rosto de gente boa, e lhe pediu dinheiro ou alimentos e a senhorinha lhe disse que lhe daria alimentos e algum dinheiro, se ela deixasse a menina.

- A menina era eu, na época com dois anos de idade. Lembro até hoje, que minha mãe mal conseguia se manter em pé, doente e mal alimentada, me pegou no colo, me abraçou, me deu um beijo demorado e em seguida, com lágrimas nos olhos me entregou à mulher...

Dna.Dolores, entrou pra dentro da casa comigo no colo, me entregou a uma mocinha, juntou tudo o que pode de alimentos, algum dinheiro e levou para minha mãe, que foi embora e eu nunca mais vi, nem ela nem meus irmãos... lembro que chorei muito... mas acabei me acostumando.

Um dia, quando eu já era maiorzinha, acho que uns 10 anos, Dna.Dolores morreu... e quem continuou cuidando de mim foi aquela mocinha, que então já era adulta, que fora criada por Dna.Dolores, do mesmo jeito que eu... só que Celina tinha sido encontrada na rua sozinha e a bondosa senhorinha que não tinha ninguém mais na vida, a recolheu.

O rosto de minha mãe biológica já se apagou da minha memória há muito tempo e dos meus irmãos, lembro só de seus vultos...

Impossível ser alucinação tão boa!

Pulava corda, brincava de roda, tinha vestido bonito, sapatos bonitos e laço de fita no cabelo, como Dna.Dolores sempre fazia. Devia ser sonho ou recordação.

Alzira perdeu a memória quando viu Celina ser atropelada por um caminhão e cair morta no chão. Isso faz aproximadamente 5 anos, nunca mais voltou ao normal.

Não demorou muito para que o sonho acabasse e ela se encontrasse novamente naquela cama, toda amarrada, sozinha, amortecida, procurando entender sua realidade.

Logo em seguida, entrou uma enfermeira, não conseguia ver seu rosto, seus cabelos lhe tampavam as feições. Entrou quieta, passou a mão nos seus cabelos, como se quisesse acalmá-la e entraram 3 homens todos de branco também. Pareciam médicos, mas podiam ser enfermeiros.

Entraram, com alguns instrumentos na mão, um parecia um serrotinho. Então o mais alto se aproximou dela e lhe tapou a boca e o nariz com um pano branco, com um cheiro forte, que imaginou ela ser éter... ela perdeu a consciência logo em seguida, só que acordou logo pela dor que sentia nas pernas, e lembrou que ainda há pouco não conseguia sentir seu corpo todo.

Abriu os olhos o quanto pode e tentou olhar na direção de suas pernas. Viu nitidamente quando um daqueles homens segurava suas pernas e o outro serrava. Estavam amputando suas duas pernas. Lembrou na hora da dor que sentira em seu pé antes da queda e sentiu um cheiro pútrido se espalhar pelo quarto.

Em sua pouca consciência, entendeu que o cheiro devia ser de suas pernas e que por isso as estavam amputando...

Sentia-se como um animal no matadouro. Queria gritar mas não tinha forças... e perdeu os sentidos novamente... não tinha mais noção de tempo nem de espaço. O cheiro devia estar impregnado nas suas narinas, pois continuava sentindo aquele cheiro permanentemente.

Algum tempo depois, na semi consciência, assistiu passivamente a mesma cena, imaginou estar delirando por estar revendo a cena... só que desta vez, assistira a amputação de seus braços... Já não tinha mais forças para raciocinar, e pedia a um Deus que nem sabia se existia, que a deixasse morrer... as lagrimas vertiam de seus olhos involuntariamente, não conseguia chorar ... o cheiro era permanente, era como se todo o ambiente estivesse apodrecido.

Não conseguia enxergar mais... tudo ao seu redor agora era uma névoa densa... ouvia sons que não conseguia mais distinguir, não sentia seu corpo, mas tinha a impressão que lhe doíam as pernas, apesar de lembrar da amputação. O cheiro era o único que sentia com certeza, o cheiro de carne podre. Chegava a sentir náuseas...

Aquilo devia ser algum tipo de alucinação diferente, pior do que as que já tinha passado... não imaginava poder haver coisas piores, mas já aceitava que não havia limites para o mal.

Quando acordou novamente, foi no colo de Dna.Dolores. O cheiro sumiu, sentiu o perfume de Dna.Dolores e percebeu que Celina estava lá também. No momento seguinte pode olhar seu corpo estava inteiro, vestida de branco como todo mundo ali, e quem a recebia dos braços de Dna.Dolores era sua mãe biológica.

Entendeu nesse instante que fora resgatada, do UMBRAL.

Vera Celms


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