domingo, 20 de setembro de 2009

A SUICIDA



Não gosto de fotografias.

Olhar álbuns de fotos, sempre achei verdadeiro “programa de índio”...

Quando era criança, quantas vezes não insistiam em me fotografar contra a minha vontade. Todas as vezes era a mesma coisa; aquela sombra preta perto de mim.

Não acredito até hoje que ninguém visse. Acho que falavam que não viam só para não me assustar. Me desacreditavam pra mim mesma, só para não alimentar o que eles achavam que era uma ‘fantasia’ da minha cabeça...

Era uma sombra equivalente a alguém maior que eu. Sempre me pareceu uma pessoa velha vestida de preto, longo... uma imagem, no mínimo sombria. Assustadora.

Eu sempre fugia de fotos.

Se alguém falasse em fotografar, inventava uma brincadeira bem distante, algo bem barulhento que nem me permitisse ouvir me chamarem. Quando minha mãe levava a câmera, eu nem ficava perto dela muito tempo, simplesmente sumia.

Quantas vezes não sonhava com aquela figura me perseguindo em longas corridas, ou em vôos assustadores. Não podia chamar de pesadelos, pois no momento em que acordava, me sentia sobressaltada, mas não apavorada. Não gostava de sonhar com ela definitivamente, se falasse dela pra alguém, chamava-a de ‘a suicida’, que era o que me fazia pensar, muito embora nunca tivesse visto nenhuma.

Algumas vezes, abria um álbum de fotografia de família, e só eu parecia ver aquela figura apavorante.

Entretanto, passaram-se vários anos sem que visse ou me lembrasse daquela sombra. Mas a aversão a fotografias e a álbuns ficara, independente de qualquer coisa.

Passei a me sentir melhor, mais segura sem aquelas visões e sonhos de antigamente.

Só que há três dias, estava voltando pra casa depois da aula, por volta de 23:30 hs e tive a nítida sensação de ser seguida na rua. Olhei pra trás e não havia ninguém. Era como se alguém corresse detrás de um poste para outro, se escondendo pra não ser visto.

Acelerei o passo e fui fazendo meu caminho, olhando em volta e para trás a todo momento. De repente, um vulto... foi tudo o que vi, um vulto se esconder atrás do poste. Minha pulsação acelerou, comecei a transpirar, minhas mãos ficaram geladas.

O medo tomou conta de mim. Estava apavorada.

Cheguei ao portão de casa. Um portão alto de madeira, duas faces, pintado de verde pálido. Quando fui passar pra dentro, vi como se aquele vulto passasse pelo vão que separa o portão do pilar de sustentação.

Aquilo me deixou mais gelada ainda, pois naquele vão tão pequeno, seria possível passar somente uma sombra, nada físico poderia caber ali.

Me convenci estar vendo coisas, não menos assustada; mas aquilo não era real.

Corri pra dentro de casa, bati e tranquei a porta por dentro e espiei pela janela, no vão da cortina. Nada vi lá fora.

Me virei para ir para o quarto, quando tive a impressão de um vulto cruzar o corredor antes de mim. Parei imóvel e fiquei olhando. Não vi mais nada.

Naquela noite mal consegui dormir. Se preguei o olho, foi por pouco tempo. Acordei de fato, tão cansada, como se não tivesse dormido.

Procurei esquecer o assunto. Com tantos afazeres, tanto corre corre, nem pensei mais naquilo.

Todas as sextas feiras saio para conversar com o pessoal depois da aula, e hoje não seria diferente. Já levo a mala, deixo no carro de um dos meninos e no final da noite descemos a Serra, a caminho da praia.

Normalmente, subimos a encosta pra pular lá de cima em vôos geniais... As asas sempre ficam na casa da praia, ou quando o tempo não está bom para saltar, ficamos no mar mesmo.

Como a noite hoje estava limpa, Lua cheia radiante... resolvemos subir a encosta logo após a chegada. Peguei minha Asa, me preparei... tomei distancia e saltei... no momento em que tirei os pés do chão, uma sombra cobriu a luz da Lua por sobre minha asa... olhei pra cima, pra ver que tamanho teria aquele pássaro...

Só que desta vez, pra meu espanto... não era um pássaro; era ela, pela primeira vez na minha vida, acordada, sem se esconder e tem o MEU ROSTO... ela ESTÁ AGORA, LÁ EM CIMA AGARRADA, PLANANDO COMIGOOOOOOOOOO!!!

Vera Celms


Nenhum comentário:

Postar um comentário