domingo, 27 de setembro de 2009

CENA INFERNAL



- A Aninha não serve mesmo pra fazer nada! Tudo ela erra.

Pedi que ela recheasse o bolo do aniversário da minha sobrinha. O bolo ficou lá, espatifado no chão da cozinha. O Recheio respingado pra todo lado. E ela? Sumiu...

- O Ronaldo pediu para ela lavar a roupa branca dele. Ela lavou, agora ele vai ter de usar ‘rosa pálido’ pois misturou sem querer uma peça vermelha na máquina.

- Então; a Mariana outro dia pediu para ela terminar de digitar o relatório e salvar no computador, pra que ela pudesse dormir um pouco. Um tempo depois, foi acordar a Mariana toda sobressaltada, pois ela tinha apagado o relatório todo sem querer.

- Nossa! Ela é muito atrapalhada... ou azarada, não sei...

- Verdade, tudo o que ela toca, dá errado... parece impossível. Ela está sempre pronta para ajudar todo mundo, mas parece que a sorte dela vira, tadinha!!! Não era assim...

- É nada... ela é desastrada, estabanada mesmo!!! Não toma cuidado com nada...

- Pois não é não... outro dia ela me disse que costuma sonhar umas coisas meio malucas. Acho que ela sofre é dos nervos.

É sério, outro dia na Escola ela desmaiou e quando estava recobrando os sentidos, falava umas coisas meio estranhas. Parecia outra língua.

- Me contaram essa história, mas será que ela não inventa?

- Inventa nada, ela não lembra de nada. Até me pediu para ir com ela ao Terreiro lá perto de casa. Vai se consultar com o Santo.

- Santo? Ela tinha de se consultar com o Psiquiatra. É doida!!! E você vai?

- Vou né... tadinha, tá apavorada e não é pra menos. Semana que vem a gente vai.

Na semana seguinte Fatinha foi com a Ana lá no Terreiro.

- E aí, você foi com ela lá no ‘negócio’?

- Menina! Fui. Nossa!!! Só de lembrar fico toda arrepiada!

- Que houve, me conta...

- Então, ela foi lá passar por consulta com um daqueles que fala grosso. Quando ele olhou pra ela ficou tudo torto, bravo e começou a falar umas coisas com ela e ela respondia igualzinho ele... Nossa! Fiquei morrendo de medo.

Ele falava tudo atrapalhado, acho que falava um dialeto lá da Africa e ela respondia com voz esquisita também. Só que ela falou que não lembrava de nada quando saiu de lá.

- Sei não, acho que ela não quer é falar...

- Não, ela não lembra de nada. Depois que conversou com o outro lá... ela caiu. Parecia desmaiada. Socorreram ela por lá, aí deixaram ela sentada no canto lá um monte de tempo e de lá ela só saiu depois que acabou tudo, já pra vir embora.

- E ninguém falou nada pra ela?

- Alguém deve ter falado, mas se falou, ela não me contou. Só sei que daquele dia pra cá ela se isolou de todo mundo. Não conversa mais como antes. Sai de casa para o trabalho, vai pra escola e volta pra casa, como se tivesse muda. Tá tão estranha!

No dia seguinte, Aninha passava na frente da casa de Fatinha, logo depois da escola, com a cara tão fechada, parecia muito brava, mas completamente muda.

Fatinha cumprimentou ela e ela passou como quem passa por um fantasma, parece nem ter visto. Disseram que ela entrou no ônibus perto da escola e começou a passar mal. Vomitou, caiu e virava os olhos de um jeito diferente. Tinha lá uma fanática religiosa qualquer que se prontificou a rezar por ela, com uma Biblia na mão.

Assim que a mulher tocou nela, foi jogada longe, como se fosse de papel... e de lá saiu correndo sem nem olhar pra trás gritando - É o Demo , é o Demo...

Aninha ficou lá no chão do ônibus dando chilique... todo mundo assustado, ninguém podia chegar perto.

Dali um pouco de tempo ela levantou, parecendo um boi bravo e saiu do ônibus, completamente descontrolada. Desceu a rua como um bicho, quase aos galopes.

Lá embaixo,é a casa da Isaura, mulher meio confiada que dá atenção demais para o Ronaldo. Aliás, dá confiança demais a todo mundo. Dizem que ela trabalha na rua a noite.

A Ana que foi pra lá, com certeza não é a mesma Ana que o pessoal da rua conhece. Estava completamente transtornada. Ninguém ousou nem sequer seguir.

No caminho até lá, todos demonstravam medo, todos saiam do caminho, alguns fugiam mesmo...

Ela chegou diante da casa da Isaura, parou com as duas mãos na cintura, pernas abertas, faltando soltar fumaça pelo nariz e gritou o nome da outra, com a mesma voz estranha de antes.

O que ninguém sabia, é que além de dar muita confiança a todo mundo e também a Ronaldo, marido da Aninha, a Isaura tinha feito uns trabalhinhos meio estranhos pra ela.

Dizem alguns que a Isaura é macumbeira das fortes... outros dizem que ela é bruxa, que faz magia negra... outros dizem que é só curiosa mesmo.

Me disseram que quando Isaura se aproximou do portão, foi ficando vermelha, os olhos foram virando de um jeito incontável. Os cabelos vermelhos dela foram se armando, como se estivesse passando por um curto circuito, seu corpo foi ficando torto como se de repente fosse feita de qualquer outro material não humano.

Por algum tempo - houve quem dissesse - que ela saiu do chão uns 30 cm, como uma marionete. Ana permaneceu ali, inerte, com a mesma fisionomia monstruosa, com a mesma figura assustadora.

O jardim da casa da Isaura foi se incendiando, as lâmpadas da rua estouraram e faiscaram, a casa estava já toda as escuras, a janela da frente batia como se tivesse ventania de tempestade e o cachorro do vizinho uivava sentido que parecia um lobo solitário na noite fria.

Em poucos minutos, a cerca da frente estava destruída pelo fogo bem como o jardim. A cortina da janela da frente levava o fogo pra dentro como uma língua ardente... enquanto isso, Isaura permanecia suspensa, não tomando conhecimento do horror que devastava sua casa.

Era ali, diante dos nossos olhos, uma cena de filme de TERROR... ninguém ficou na rua...

Por sobre a casa, haviam clarões de relâmpagos e barulhos como se fossem trovões ou pequenas explosões dentro da casa. Ninguém tinha noção exata do que estava acontecendo por lá e muito menos coragem de se aproximar o suficiente para entender.

Algumas pessoas rezavam com fervor, de longe, outras choravam em quase crise nervosa. A maioria simplesmente desapareceu. Parecia uma rua abandonada por causa de uma guerra.

Não sei quanto tempo demorou esta cena inacreditável.

Certamente foi tempo demais para a cena de um filme. Era uma hecatombe.

Aos poucos os clarões e barulhos foram diminuindo. A ruína foi aparecendo e deixando visível a proporção do estrago da casa, entretanto, a medida que a cena se apresentava, as duas personagens foram tomando menor destaque e quando tudo acabou as duas haviam simplesmente desaparecido como fumaça.

Nunca mais ninguém ouviu falar nem de Ana, nem de Isaura. A casa está até hoje do mesmo jeito daquela fatídica noite. Ronaldo nunca conseguiu entender o que aconteceu e permanece ainda em meio estado de choque, como todo mundo que conheceu aquela figura tão doce, estabanada e solícita que foi batizada como o nome de Ana, pra todo mundo, até hoje... Aninha. Vera Celms


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