domingo, 2 de agosto de 2009

REENCONTRO


Fazia tanto tempo que estava sozinha.

Afastada de tudo e de todos. Era estranho voltar às ruas. Era estranho olhar aquele mundo de gente desconhecida, passando por mim como formigas.

Não conhecia ninguém naquela multidão. O que me confortava um pouco era estar indo afinal para um encontro com amigos, depois de tanto tempo.

Não me lembrava exatamente do rosto de ninguém. Afinal, eram quase trinta anos passados. Todo mundo, como eu, devia estar muito diferente.

A ultima vez que nos vimos foi naquela excursão ao Circuito das Águas e não me lembro de detalhe nenhum. Incrível como a memória da gente é efêmera.

O tempo passa como o vento, rápido, tirando as coisas do lugar, modificando a vida e a paisagem constantemente. Fecho os olhos e sinto como se ainda fosse aquela mesma pessoa de há 20 e tantos anos.

Fica difícil recuperar a cronologia do tempo, como se durante vinte anos eu nada tivesse feito, nada tivesse visto, nada tivesse acontecido. Como se eu não fosse testemunha do tempo.

Eu estava lá. Mas, neste momento, fica difícil lembrar da história.

Caminhava decidida, ansiosa, mas meio que no ‘piloto automático’ em função de tantas lembranças e pela busca da memória as vezes tão falha.

Quantas pessoas teriam confirmado presença nesse encontro? Quantas de fato compareceriam? De quantas eu me lembraria realmente? Quanta lembrariam de mim?

Tudo era uma grande interrogação, a insegurança era inevitável, ninguém sabia como seria recebido, se seria aceito da mesma forma depois de vinte e tantos anos.

As respostas virão de uma só vez, tão logo chegue ao Bar. Temo.

Fui me aproximando do endereço e avistei afinal o local determinado: BARDALICE. É aqui. Cheguei, parei na porta, olhei para dentro e localizei um grupo no mezanino. Subi as escadas vagarosamente, sem tirar os olhos daquele grupo.

Logo fui vista por alguém do grupo que chamou a atenção dos demais. Alguns se viraram para me ver subir as escadas. A priori, não reconheci ninguém, mas fui em direção ao grupo puxando pela memória.

Dentre tantos rostos, ali estavam umas 30 pessoas aproximadamente, olhei uma figura ali sentada, que me lembrou Estela. Foi a primeira pessoa que reconheci, ou associei a uma fisionomia conhecida do passado. Me aproximei sorrindo, ela se levantou sorrindo também, e diante dos meus olhos sumiu... como num passe de mágica, ela simplesmente desapareceu diante dos meus olhos.

Fiquei bastante confusa, mas procurei disfarçar, até para que os demais não notassem minha confusão tão evidente. Mais adiante reconheci Elias. O mesmo tipo engraçado de sempre. Usava como da ultima vez que o vi, um cavanhaque e bigode que faziam com que ele se parecesse um francês antigo. Óculos de aro dourado fininho lhe dava um ar de intelectual. Sempre rindo, gesticulando, falando baixo, como que contasse um segredo a todo momento. Era de fato, um tipo hilário.

Fui me aproximando sorridente, já um pouco temerosa, de encontro ao abraço aberto e sorridente de Elias, mas no momento em que cheguei perto dele, abracei alguém que não estava ali, e simplesmente passamos um pelo outro, como fantasmas que se transpõe. Fiquei ali com os braços abertos sem nada entender novamente.

Ao lado, Tito olhava aquela Cena com ar incrédulo e veio ao meu encontro. Achei por um momento que viria me consolar naquela cena ‘impossível’, no entanto, no exato momento em que passara o braço por sobre meu ombro para me acolher num abraço, igualmente a Estela e Elias, Tito sumiu, como vapor diante de mim.

Neste momento olhei em torno de mim e lembrei de todo aquele pessoal. Sabia exatamente quem era quem naquele grupo, me lembrei de todos eles, de seus nomes e de detalhes do passado que até então não havia nem pensado.

Um a um foi sumindo diante dos meus olhos. Já não conseguia me controlar, nem me conformar com aquela situação inexplicável. Aqueles, de quem não me aproximei, ficaram no fundo do salão me olhando como se fizessem parte de um quadro; imóveis, inertes, inexpressivos... Aos poucos, foram se levantando e caminhando rumo à saída do Bar, passando através de mim como todos os outros.

Me vi afinal, sozinha na festa. Sem entender, nem me conformar, me sentei próximo de uma mesa e chorando copiosamente, devo ter perdido os sentidos. No momento seguinte senti meu corpo e cabeça leves como se flutuasse. Olhei em volta e reconheci um quarto de Hospital. Paredes verde claro, equipamentos médicos e na cama estava EU deitada, com fios e tubos ligados ao meu corpo.

Do lado de fora do quarto, meus pais, alguns amigos conversavam em tom baixo de voz e falavam sobre um acidente de ônibus de excursão, e sobre como me contariam ter sido eu a única sobrevivente daquela catástrofe.

Vera Celms


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