domingo, 23 de agosto de 2009

ENTRE O SONHO E A FANTASIA

Eles estavam sozinhos dentro daquela casa imensa.
Chovia!!! Como chovia!!!
Os raios pareciam emendados um no outro, e os trovões, após o clarão contínuo, chegavam a estremecer a casa.
O medo de Carla era evidente. Cada raio era suficiente para que ela contivesse a respiração... e durante os estrondos chegava a sobressaltar.
Aquela chuva já demorava a passar, a água batia com força contra as janelas aumentando ainda mais o desespero de Carla.
Ela procurava demonstrar calma, mas era impossível. Tamanha tempestade... e o medo de mais uma descarga elétrica, de mais uma enchente.
Augusto tinha vontade de tomá-la nos braços. De protegê-la de toda aquela fúria da natureza.
Muito embora soubesse que nada aconteceria, ou pelo menos que nada podia ser feito para amenizar a aflição de Carla.
A água começou a molhar a sala, escorrendo para dentro, por debaixo da porta e pela janela, que mesmo fechadas, não conseguiam evitar a entrada da água.
Aquela situação, agora deixava a moça mais aflita ainda. Afinal foi assim naquela noite de enchente. Tudo começou assim.
Sabiam que precisavam voltar para casa. Mas como? Parecia que aquela chuva nunca mais ia parar. Atreverem-se a sair sob aquela tempestade toda, era loucura.
O carro podia atolar, ou em caso de nova enchente, ficarem presos. Derrapar. Deslizamento de terra na estrada.
Enfim, eram tantos os perigos, que mais valia esperar. Correr o risco e assumir todas as conseqüências de toda aquela extravagância.
A esposa de Augusto, Suzana já devia estar preocupada e muito nervosa, afinal a mulher quando gestante, fica muito mais sensível e cismada.
Tony devia estar esperando Carla em sua casa, ou se não estivesse, com certeza esperava ao menos um telefonema. Mas, os celulares dos dois fora de serviço e o telefone da casa não poderia ser usado para não levantar suspeitas.
Aliás, todo mundo conheceria aquele numero da chácara. Maior seria a exposição de voltarem juntos, cada um para sua casa, após um telefonema da chácara.
Agora era rezar para que o temporal acabasse para poderem voltar em segurança.
Foi só pensar em rezar, que após o ultimo estrondo...a energia caiu. Estavam mesmo, agora aflitos. Carla apavorada se encolheu no canto do sofá como uma criança desprotegida.
Augusto não conseguiu ver aquela cena impassível. Lançou-se sobre Carla no ímpeto de protegê-la ou pelo menos de diminuir sua aflição. Segurou sua mão, e acariciou seus cabelos sempre tão perfumados.
Augusto era um homem grande, bastante alto, forte, de corpo bem definido e ombros largos. Carla uma mulher muito bonita, loira, cabelos longos até o meio das costas, repartidos de lado, muito bem cuidada, corpo mediano... perfumada e feminina ao extremo.
Impossível resistir por muito tempo àquela situação limítrofe. Quando abraçou Carla, sentiu seu corpo responder imediatamente, excitado, nervoso, desconfortável, mas incontrolável.
Carla por sua vez, sob aquele corpanzil todo, sentia-se mais protegida, como se por algum tempo não só a tempestade, como o mundo lá fora tivesse acabado ou sumido.
Naquele momento ambos pensaram que deveriam ter ido embora quando a chuva apenas se anunciava... mas, sempre tão bons amigos, tinham vontade de matar a saudade dos tempos passados e começaram a recordar momentos através de histórias que se completavam pela lembrança de um pelo outro.
Carla sabia o quanto Augusto a desejava, porém, cavalheiro que sempre fora, jamais poria em risco a amizade que alimentava as duas famílias, e a situação da gestação de sua esposa.
Por outro lado, Augusto imaginava, no mais profundo do seu peito, que Carla tinha por ele, senão o mesmo, mas um desejo equivalente, imaginando a mesma forma de precaução para que nada houvesse entre os dois.
Sabiam enfim, que brincavam com fogo, expondo-se ao risco de passarem longas horas sozinhos.
Eram capazes de conversar por horas, falar sobre assuntos delicados, excitantes, sem nem ao menos uma insinuação mínima que fosse.
Da ultima vez que conversaram, online pelo provedor de e-mails, falavam de algumas fantasias, aproveitando a distância física daquele momento.
O que Augusto não contava e descobriu ali, é que Carla estava incorporando, ainda que de forma casual a fantasia que confessara a ela como sua.
Ela estava de saia branca de linho, aliás, não uma saia... mas um vestido branco de linho, sutilmente transparente, sem nenhum lingerie por baixo. Ou seja, a musa, a ninfeta de seus sonhos estava separada da manifestação de seu desejo apenas por um fino tecido branco, de certa transparência sutil, onde se podia ver, pela posição que estava no sofá, no vão dos botões levemente entreabertos, um pouco do corpo que tanto desejava.
O que fazer diante de uma situação tão desejada? Levantar-se como quem não viu, acalentar o medo daquela mulher tão viva? Ou investir na realização, na continuidade daquele completo desvario que compunha a tarde de lembranças.
Seria um sinal do destino toda aquela tempestade? Ou um castigo dos céus?
Naquele momento, nada mais importava. A rota já havia sido traçada, agora era só decidir a extensão, a proporção das conseqüências ou do segredo a carregar talvez para o resto de toda a vida.
Augusto começou a abraçar Carla, de forma terna. Entretanto, pouco demorou para que ela sentisse a reação daquele corpo tão másculo e tão vívido. Aos poucos, sua respiração foi se soltando, e de contenção, passou a arritmia, ao descompasso, ao tremor.
O que antes parecia um animalzinho ferido, recolhido no canto do sofá, agora era uma fêmea pronta a deixar-se explorar.
As mãos de Augusto, que acalmavam a aflição de momentos de fúria da natureza, agora nem mais podiam se conter na exploração daquele monumento a sensualidade coberto pelo seu corpo já insaciável.
Suas mãos rapidamente buscaram o entremeio dos botões que deixavam escapar um pouco daquele corpo, que mesmo que não fosse perfeito, era ali, uma escultura personificada de todo o instinto amordaçado há tanto tempo.
Desde os tempos da faculdade ele desejava aquela mulher. Mas não era amor, era desejo, era carnal, era o animal que teimava em despertar em fantasias inconfessáveis. Falavam delas como relato de enredos, direcionados a qualquer outra mulher na face da terra, até para que não se expusesse a repelir a amiga que residia naquele corpo, como uma história de vida inteira.
Mas, naquele momento, era impossível conter. A realização de um corpo nu, docemente perfumado, por sob um vestido branco semi transparente, ao alcance de suas mãos. E mais, um corpo fragilizado pelo medo, precisando da sua proteção e calor, e carinhos. Logo, suas mãos rompiam o vão dos botões, deixando descoberto um par de seios, cuja rigidez de suas auréolas, denunciavam que aquele não era um momento de loucura solitária.
Sua boca encontrou a boca sedenta daquela quase miragem a sua frente, e encaixou-se despudoradamente por sobre aquele corpo agora não mais aflito, mas inquieto e suplicante, lânguido, deslizante, repleto de braços e pernas que se moviam num balé sincronizado.
Sua mão logo encontrou o vão de suas pernas, úmido, quente, louco, já quase encharcado, se estendendo às suas ancas deliciosamente volumosas, percorrendo-lhe o corpo todo, intensa e desenfreadamente.
A tempestade lá fora havia acabado, pelo menos para aqueles dois seres entorpecidos de de prazer. Aqueles corpos se completavam a cada centímetro, enroscando braços e pernas, bocas e cabelos, pelos e suor... Completamente desnudos por sobre o tapete da sala, não havia mais limites, nem mundo, nem fronteiras, nem preocupações, nem família. Ninguém mais no mundo era tão importante quanto aquele momento adiado e vivido agora com toda a força de seus seres.
Era uma manifestação quase selvagem. O mundo todo por um momento.
Amaram-se por horas, e quando não mais agüentavam, corpos exaustos; a preocupação com Suzana e Tony voltou como uma avalanche ao juízo dos dois amantes.
Ainda na madrugada, agora observando os estragos feitos pela tempestade. O cenário todo desarrumado denunciava a fúria da natureza, provando que não era sem motivo o pânico de Carla.
Entretanto, no meio da estrada havia ocorrido um deslizamento de terra, que interrompia completamente a passagem. Os policiais e os bombeiros no local, os carros de resgate, deixavam aquela cena com ares de catástrofe e não somente de um deslizamento tão comum naquela região.
Augusto saiu do carro e foi conversar com o pessoal do bloqueio que informou a ele a existência de vitimas fatais naquele acidente terrível.
Ficaram ali por horas, aguardando que parte da pista fosse desimpedida para que os veículos passassem em direção a São Paulo. Puderam ver quando dois carros foram parcialmente resgatados por debaixo daquela terra toda que cobria a estrada. Aproximou-se um pouco mais no intuito de ajudar se preciso fosse.
De repente ouviu o bombeiro pedindo que abrissem passagem pois uma das vitimas, mulher de aproximados 30 anos, aparentemente sem vida, estava grávida de aproximados 5 meses. Com ela estavam uma senhora e um senhor, de aproximados 70 anos, também aparentemente mortos.
De imediato Augusto empalideceu ao ver a moça grávida, vestida com um vestido branco abotoado a frente, cabelos loiros, toda suja de terra. Reconheceu, era Suzana e os pais dela que a acompanhavam em direção à chácara.
No outro carro, um rapaz de aproximados 30/35 anos, acompanhado de uma moça. Muito sujos de terra e quase irreconhecíveis, aparentemente mortos. Olhando mais detidamente, com a terra removida parcialmente até pela chuva forte, era Tony e sua irmã.
Coincidência? Castigo? Recado do destino? Ou a reacomodação das peças de um jogo?
Terá sido a realização de uma fantasia, de um desejo entre duas pessoas em detrimento do sonho maior de duas vidas?
A chuva cessou.


Vera Celms

domingo, 16 de agosto de 2009

DESFOCO...



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Meu mirante perfeito...
O escuro do meu quarto,
O silencio como testemunha,
A casa deserta,
Nenhum movimento, nenhum som,
Isso já virou rotina,
A não ser o som do vento,
Uivando pela minha janela, tentando entrar,
La fora, tantos domingos,
Crianças brincam, musicas ao longe,
O som dos carros distantes,
Faz me lembrar o tempo em que eu vivia lá fora,
Hoje, o meu reino é aqui...
Porto seguro,
Meu quarto escuro,
Como escura hoje é minha realidade,
Perdi as cores, perdi o brilho,
Sinto tristeza, tanta tristeza,
Que de mim já não tenho certeza,
Hoje nada mais me encanta,
Nada mais me fascina,
Comemoro minhas lembranças num prazer solitário,
Diante de um computador,
O único, a quem confesso a minha dor,
Enquanto procuro vida falante do outro lado...
Pra não perder o poder do diálogo...
A luz do dia já me entristece,
E só a noite me enternece...
Acho que estou virando coisa...
Ou passado, ou lembrança,
Daqui a pouco me arquivo no álbum de fotos,
E aí, nunca mais...

Vera Celms
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DESFOCO... de Vera Celms está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
 

domingo, 9 de agosto de 2009

A HORA É CERTA


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Tratou com a vida a morte certa,
Tratou a morte com indiferença,
Achava que ela chegava só em casa incerta,
Daquele amigo sem crença,
Ou na casa do vizinho, ou do vizinho dele,
Não lembrou poder ser ele,
Doença, desastre, morte?
É falta de sorte,
Mas a de todos está marcada,
Até a patroa fica na mão se for na casa da empregada,
Dura esta velha senhora de negro
Pra ela tudo é efêmero...
Chega, nem bate, recolhe e sai...
Leva consigo o velho, o filho ou o pai...
Todo mundo é todo mundo,
De empresário a vagabundo,
Difícil é sair com a mão abanando,
E quando vai, todo mundo fica chorando,
Resistente, reticente, impiedosa,
Inflexível deixa a família queixosa...
Pode ser de susto ou com rastro de sangue,
Pode levar muito tempo ou só um instante,
Ninguém escapa desta presença sorrateira,
Ou virando a esquina ou de plantão na cabeceira,
Ela estará sempre lá,
Sem negociação, não tem como protelá...
Chega a qualquer momento,
Não escolhe por sentimento,
Causa tanto aborrecimento,
Deixa todo mundo desolado,
Em pânico, desesperado,
Quando chega o momento, todo mundo vê a senhora,
Chegando ao longe, devagar ou em cima da hora,
Tem quem pede: chega, mata e leva embora,
Quem discute, pode ser carregado da vida pra fora,
E aí pode ficar machucado...
Depois diz que sofreu, que foi até torturado...
O melhor é não espernear,
Deita, fecha os olhos, com calma ou de sopetão,
É que pra essa viagem não se leva nem bagagem de mão...
Não dá tempo de retrucar,
E também não dá pra voltar...
Ela chega, mata e foge...
E LEVA...
Vera Celms


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domingo, 2 de agosto de 2009

REENCONTRO


Fazia tanto tempo que estava sozinha.

Afastada de tudo e de todos. Era estranho voltar às ruas. Era estranho olhar aquele mundo de gente desconhecida, passando por mim como formigas.

Não conhecia ninguém naquela multidão. O que me confortava um pouco era estar indo afinal para um encontro com amigos, depois de tanto tempo.

Não me lembrava exatamente do rosto de ninguém. Afinal, eram quase trinta anos passados. Todo mundo, como eu, devia estar muito diferente.

A ultima vez que nos vimos foi naquela excursão ao Circuito das Águas e não me lembro de detalhe nenhum. Incrível como a memória da gente é efêmera.

O tempo passa como o vento, rápido, tirando as coisas do lugar, modificando a vida e a paisagem constantemente. Fecho os olhos e sinto como se ainda fosse aquela mesma pessoa de há 20 e tantos anos.

Fica difícil recuperar a cronologia do tempo, como se durante vinte anos eu nada tivesse feito, nada tivesse visto, nada tivesse acontecido. Como se eu não fosse testemunha do tempo.

Eu estava lá. Mas, neste momento, fica difícil lembrar da história.

Caminhava decidida, ansiosa, mas meio que no ‘piloto automático’ em função de tantas lembranças e pela busca da memória as vezes tão falha.

Quantas pessoas teriam confirmado presença nesse encontro? Quantas de fato compareceriam? De quantas eu me lembraria realmente? Quanta lembrariam de mim?

Tudo era uma grande interrogação, a insegurança era inevitável, ninguém sabia como seria recebido, se seria aceito da mesma forma depois de vinte e tantos anos.

As respostas virão de uma só vez, tão logo chegue ao Bar. Temo.

Fui me aproximando do endereço e avistei afinal o local determinado: BARDALICE. É aqui. Cheguei, parei na porta, olhei para dentro e localizei um grupo no mezanino. Subi as escadas vagarosamente, sem tirar os olhos daquele grupo.

Logo fui vista por alguém do grupo que chamou a atenção dos demais. Alguns se viraram para me ver subir as escadas. A priori, não reconheci ninguém, mas fui em direção ao grupo puxando pela memória.

Dentre tantos rostos, ali estavam umas 30 pessoas aproximadamente, olhei uma figura ali sentada, que me lembrou Estela. Foi a primeira pessoa que reconheci, ou associei a uma fisionomia conhecida do passado. Me aproximei sorrindo, ela se levantou sorrindo também, e diante dos meus olhos sumiu... como num passe de mágica, ela simplesmente desapareceu diante dos meus olhos.

Fiquei bastante confusa, mas procurei disfarçar, até para que os demais não notassem minha confusão tão evidente. Mais adiante reconheci Elias. O mesmo tipo engraçado de sempre. Usava como da ultima vez que o vi, um cavanhaque e bigode que faziam com que ele se parecesse um francês antigo. Óculos de aro dourado fininho lhe dava um ar de intelectual. Sempre rindo, gesticulando, falando baixo, como que contasse um segredo a todo momento. Era de fato, um tipo hilário.

Fui me aproximando sorridente, já um pouco temerosa, de encontro ao abraço aberto e sorridente de Elias, mas no momento em que cheguei perto dele, abracei alguém que não estava ali, e simplesmente passamos um pelo outro, como fantasmas que se transpõe. Fiquei ali com os braços abertos sem nada entender novamente.

Ao lado, Tito olhava aquela Cena com ar incrédulo e veio ao meu encontro. Achei por um momento que viria me consolar naquela cena ‘impossível’, no entanto, no exato momento em que passara o braço por sobre meu ombro para me acolher num abraço, igualmente a Estela e Elias, Tito sumiu, como vapor diante de mim.

Neste momento olhei em torno de mim e lembrei de todo aquele pessoal. Sabia exatamente quem era quem naquele grupo, me lembrei de todos eles, de seus nomes e de detalhes do passado que até então não havia nem pensado.

Um a um foi sumindo diante dos meus olhos. Já não conseguia me controlar, nem me conformar com aquela situação inexplicável. Aqueles, de quem não me aproximei, ficaram no fundo do salão me olhando como se fizessem parte de um quadro; imóveis, inertes, inexpressivos... Aos poucos, foram se levantando e caminhando rumo à saída do Bar, passando através de mim como todos os outros.

Me vi afinal, sozinha na festa. Sem entender, nem me conformar, me sentei próximo de uma mesa e chorando copiosamente, devo ter perdido os sentidos. No momento seguinte senti meu corpo e cabeça leves como se flutuasse. Olhei em volta e reconheci um quarto de Hospital. Paredes verde claro, equipamentos médicos e na cama estava EU deitada, com fios e tubos ligados ao meu corpo.

Do lado de fora do quarto, meus pais, alguns amigos conversavam em tom baixo de voz e falavam sobre um acidente de ônibus de excursão, e sobre como me contariam ter sido eu a única sobrevivente daquela catástrofe.

Vera Celms