domingo, 19 de julho de 2009

SERRAÇÃO



Já era rotina. Todos os finais de semana Toni saía de São Paulo em direção a Campo Limpo Paulista.

Abastecia o carro com alguns mantimentos, roupas, alguns objetos diferentes a cada viagem e ia para a casa de seus pais. Passava o final de semana e voltava no final da noite de domingo.

Via Anhanguera, e alguns kilometros depois, entrada para Campo Limpo Paulista. Uma estrada de pouco movimento, estreita, sinuosa em alguns trechos e com paisagens humildes que mal podiam ser vistas na escuridão da noite.

Mas, Toni sempre gostou de viajar a noite, preferencialmente de madrugada.

Noite de lua cheia... clara... linda... mal entrou na estradinha e de repente baixou uma serração inexplicável, como se tivesse entrado em outro mundo.

Baixou os faróis para poder ver um pouco mais a frente, e tudo o que via era a serração como fumaça diante dos faróis.

Velocidade reduzida para não correr nenhum risco, vez ou outra cruzava com algum veículo em direção contrária, o que não era comum para aquele horário, não naquela estrada.

O que o intrigava, é que não conseguia ver as luzes pelo retrovisor depois de cruzar os veículos.

De repente um bloqueio na estrada, uma fila de carros parada a sua frente, não eram muitos, mas o suficiente para que tivesse de parar e esperar passagem.

A frente do bloqueio, vários policiais rodoviários, algumas viaturas e o que parecia, ao longe, um acidente com vítima fatal.

No asfalto, um volume; conclusivamente um corpo, coberto por jornal.

Toni não parou para olhar, sempre foi contra parar para observar acidentes, ainda mais sob serração, podendo gerar tumulto e novos acidentes. Passou direto.

Os policiais, enquanto ele passava pelo bloqueio, tinham o rosto coberto por mascaras, do tipo cirúrgica, o que talvez fosse explicado pelo caminhão tanque também envolvido no acidente. Provavelmente algum produto toxico transportado pelo caminhão.

As tochas acesas formavam sinalização tanto no caminho anterior quanto posterior ao acidente, formando uma via onde era possível a passagem de um único veículo por vez.

Toni sempre fora muito cauteloso e passou conforme as condições do local, a baixa velocidade, com faróis baixos e com a atenção voltada somente ao seu caminho.

Passou vagarosamente até a ultima tocha acesa e sentiu que a serração aumentou consideravelmente. A escuridão adiante era assustadora.

Alguns metros depois a neblina simplesmente acabou. A noite voltou a ficar clara, limpa, linda. Olhou pelo retrovisor e nada do que havia passado podia ser visto. Pelo retrovisor noite clara, estrada desimpedida, sem viaturas, sem guardas, sem caminhão ou corpo coberto de jornal no chão.

Assustador! Nada... não havia nada. Como se tudo aquilo fosse a passagem de um túnel do tempo, ou uma outra dimensão tão inexplicável quanto incompreensível.

Toni jamais chegou a casa de seus pais.

Seu carro foi encontrado no dia seguinte, parado no acostamento da estrada, intacto.

Não havia sinais de colisão, nem de arrombamento, as chaves estavam no contato, o carro carregado com suas coisas pessoais, alimentos, uma TV de LCD embrulhada para presente, com um lindo laço vermelho e um cartão homenageando o aniversario de 50 anos de casamento de seus pais.

Sua mãe nunca se conformou com o sumiço de Toni.

Seu pai, logo que encontraram o carro de Toni, levou todas as coisas para casa.

A TV de LCD novinha, tirou da caixa, com o coração apertado e ligou. Na tela, registrada como uma tela pintada, a cena de um acidente horrendo na rodovia, exatamente no mesmo lugar onde tinha sido encontrado o carro de Toni e um corpo no chão, coberto por jornais, completamente desfigurado, em função de uma forte colisão com um caminhão de nitrogênio.

O corpo nunca foi identificado...


Vera Celms


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