domingo, 5 de julho de 2009

MIRRUIAH


- Não, você não sabe o que está dizendo.

- Sei sim... era ele...

- Como pode ter certeza, você me disse que era um sonho...

- E era, mas tenho certeza que era ele.

Mirruiah tinha me contado há muito tempo aquele sonho.

Estava na rua, depois de ter saído do serviço, com um amigo, Natan, quando foi abordada na mesa do bar, pelo chinês.

Estava rindo com Natan e o chinês deve ter pensado que era dele que riam. Se aproximou dos dois, com ar nítidamente incomodado e apontando o dedo no nariz de Mirruiah disse:

- Você vai morrer... - e sumiu como por mágica.

Mirruiah não entendera muito bem, sentiu medo, mas tentou afastar aquela sensação,e comentou com Natan:

- Ah tá! Tudo bem, como vai lembrar de mim? Só aqui na Paulista, quantas loiras de olhos azuis não devem existir? Ou ele me mata agora, ou não vai me ver nunca mais. Como vai encomendar a minha morte, se não passo por aqui sempre? E riu novamente, nervosa. Quando levantou os olhos, o chinês estava diante deles, com uma câmera fotográfica na mão.

- Enko San, não, por favor... vamos negociar. Não estávamos falando de você. Não precisa fazer isso.

E antes que Mirruiah pudesse falar qualquer coisa a mais, o chinês bateu a foto e sumiu novamente, como que por mágica, deixando-a descontrolada na mesa do bar, com uma foto instantânea no colo. Acordou assustada.

Depois disso, Mirruiah voltou a sonhar novamente com o chinês, varias vezes. Sempre nas mesmas condições. Sempre ameaçando, batendo fotos, perseguindo, espiando.

Sempre em lugares públicos, acompanhada de amigos ou parentes. Uma das vezes Mirruiah estava com seu filho numa lanchonete da Faculdade e lá estava o chinês novamente bravo, olhando torto para ela, batia uma foto jurando-a de morte e sumia.

Era sim um sonho recorrente, de quando em quando acontecia. As vezes demorava, ela chegava quase a esquecer e de repente, lá estava o chinês de novo povoando os seus sonhos.

Andava mesmo muito preocupada, pois voltava a acontecer de forma mais intensa e freqüente no ultimo mês. Sentia medo, andava apavorada, sentia-se vigiada o tempo todo, por todos os lugares. Tinha as vezes a impressão de estar sendo seguida. As vezes estava andando e se virava de repente, como quem fosse flagrar alguém tentando lhe golpear pelas costas.

Mal conseguia dormir. Quando conseguia, acordava assustada, suando, pálida, tremendo, com expressão de pavor e no momento seguinte não se lembrava de nada e também não conseguia voltar a dormir.

Sentia fortes dores de cabeça, acho que até por não conseguir descansar, não comia direito, não conseguia se concentrar em mais nada, se afastou dos amigos todos.

Achei melhor que procurasse um médico, um psiquiatra, ou um psicólogo. Ela falava que não era nada, que devia procurar um especialista em sonhos, dizendo que aquilo devia ser alguma coisa da cabeça dela e logo fugia do assunto.

O que mais me intrigava, é que algumas das pessoas que estavam com ela em alguns desses sonhos, relatavam no dia seguinte terem sonhado com ela também. Não necessariamente nas mesmas condições do sonho, mas sonhavam com ela em situações de fuga, se escondendo, correndo...

Mirruiah chegou a marcar consulta com um psiquiatra para o final do mês.

Mais de uma vez, andava pela rua com ela e parecia procurar alguém na multidão, olhava em volta, como se soubesse estar sendo vigiada o tempo todo e nada via.

Sentia dó dela, demonstrava um certo desequilíbrio mesmo nos últimos tempos. Chorava por qualquer coisa, as vezes brincadeiras inocentes com colegas do trabalho eram motivo suficiente para Mirruiah acabar chorando. Se alguém perguntasse alguma coisa duas vezes, questionando alguma resposta sua, chorava dizendo que ninguém acreditava nela.

Evitava ficar sozinha a noite. Seu filho, nos finais de semana, dormia na casa da namorada, e Mirruiah dormia na casa da sua irmã, ou trazia uma amiga para dormir na sua casa, ou seu sobrinho. Enfim, procurava ter sempre alguém por perto durante as noites.

Até que na manhã de terça-feira, Mirruiah acordou chorando depois de mais um daqueles sonhos. Ligou pra mim assim que acordou, perguntando como eu estava, e me contou que tinha sonhado comigo dessa vez e me relatou mais um episodio, em que o chinês a ameaçava, fotografava e sumia de novo.

Só que desta vez, Mirruiah ficou mais assustada do que normalmente, ou fui eu que senti isso por ter sido eu quem a acompanhava desta vez, não sei bem.

Fazia vários dias que não conseguia dormir. Talvez sentisse medo de dormir, achava sempre que sonharia de novo, que acordaria apavorada de novo. Só que na terça resolveu tomar um calmante e dormir novamente. Rafael, seu filho, estranhou, pois a mãe, depois que falou comigo ao telefone, ao invés de ir para o trabalho, tomou o remédio e dormiu, contrariando o que fazia sempre.

Não acordou mais.

Hoje pela manhã, Rafael me procurou pra me entregar a foto instantânea que sua mãe batera comigo na lanchonete da Av.Paulista, aquela onde ela sempre ia quando saia do serviço.

Eu nunca fui àquela lanchonete e nunca tivemos nenhuma foto juntas. Meu Deus!!!

Vera Celms


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