domingo, 26 de julho de 2009

AONDE ESQUECI DE MIM?


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Sentada no parapeito do mundo,
Espio lá embaixo, cada movimento,
Crianças brincando,
Casais namorando,
Amigos cochichando,
E eu aqui com esta idéia mórbida,
Penso que em instantes,
Serei uma figura disforme, inerte,
Desfigurada, caída no chão,
Talvez umas poucas lágrimas,
Outras poucas lembranças,
Alguma idolatria tardia,
Afinal, depois de morto todo mundo vira ídolo,
Porque comigo seria diferente?
Por ser anônima,
Reclusa, esquecida?
Abandonada, solitária, louca?
Talvez por ideologia pouca?
Talvez por vagos motivos,
Por falsas marcas,
Quem sabe por cicatrizes indisfarçáveis,
Por hematomas indecifráveis,
Por falta de pegadas no caminho?
Talvez porque talvez já tenha morrido,
E não se morre duas vezes numa só vida,
Ainda que seja de solidão...
Ainda que tenha sido por abandono...
De si mesmo...
Vera Celms
Licença Creative Commons
AONDE ESQUECI DE MIM? de Vera Celms está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

domingo, 19 de julho de 2009

SERRAÇÃO



Já era rotina. Todos os finais de semana Toni saía de São Paulo em direção a Campo Limpo Paulista.

Abastecia o carro com alguns mantimentos, roupas, alguns objetos diferentes a cada viagem e ia para a casa de seus pais. Passava o final de semana e voltava no final da noite de domingo.

Via Anhanguera, e alguns kilometros depois, entrada para Campo Limpo Paulista. Uma estrada de pouco movimento, estreita, sinuosa em alguns trechos e com paisagens humildes que mal podiam ser vistas na escuridão da noite.

Mas, Toni sempre gostou de viajar a noite, preferencialmente de madrugada.

Noite de lua cheia... clara... linda... mal entrou na estradinha e de repente baixou uma serração inexplicável, como se tivesse entrado em outro mundo.

Baixou os faróis para poder ver um pouco mais a frente, e tudo o que via era a serração como fumaça diante dos faróis.

Velocidade reduzida para não correr nenhum risco, vez ou outra cruzava com algum veículo em direção contrária, o que não era comum para aquele horário, não naquela estrada.

O que o intrigava, é que não conseguia ver as luzes pelo retrovisor depois de cruzar os veículos.

De repente um bloqueio na estrada, uma fila de carros parada a sua frente, não eram muitos, mas o suficiente para que tivesse de parar e esperar passagem.

A frente do bloqueio, vários policiais rodoviários, algumas viaturas e o que parecia, ao longe, um acidente com vítima fatal.

No asfalto, um volume; conclusivamente um corpo, coberto por jornal.

Toni não parou para olhar, sempre foi contra parar para observar acidentes, ainda mais sob serração, podendo gerar tumulto e novos acidentes. Passou direto.

Os policiais, enquanto ele passava pelo bloqueio, tinham o rosto coberto por mascaras, do tipo cirúrgica, o que talvez fosse explicado pelo caminhão tanque também envolvido no acidente. Provavelmente algum produto toxico transportado pelo caminhão.

As tochas acesas formavam sinalização tanto no caminho anterior quanto posterior ao acidente, formando uma via onde era possível a passagem de um único veículo por vez.

Toni sempre fora muito cauteloso e passou conforme as condições do local, a baixa velocidade, com faróis baixos e com a atenção voltada somente ao seu caminho.

Passou vagarosamente até a ultima tocha acesa e sentiu que a serração aumentou consideravelmente. A escuridão adiante era assustadora.

Alguns metros depois a neblina simplesmente acabou. A noite voltou a ficar clara, limpa, linda. Olhou pelo retrovisor e nada do que havia passado podia ser visto. Pelo retrovisor noite clara, estrada desimpedida, sem viaturas, sem guardas, sem caminhão ou corpo coberto de jornal no chão.

Assustador! Nada... não havia nada. Como se tudo aquilo fosse a passagem de um túnel do tempo, ou uma outra dimensão tão inexplicável quanto incompreensível.

Toni jamais chegou a casa de seus pais.

Seu carro foi encontrado no dia seguinte, parado no acostamento da estrada, intacto.

Não havia sinais de colisão, nem de arrombamento, as chaves estavam no contato, o carro carregado com suas coisas pessoais, alimentos, uma TV de LCD embrulhada para presente, com um lindo laço vermelho e um cartão homenageando o aniversario de 50 anos de casamento de seus pais.

Sua mãe nunca se conformou com o sumiço de Toni.

Seu pai, logo que encontraram o carro de Toni, levou todas as coisas para casa.

A TV de LCD novinha, tirou da caixa, com o coração apertado e ligou. Na tela, registrada como uma tela pintada, a cena de um acidente horrendo na rodovia, exatamente no mesmo lugar onde tinha sido encontrado o carro de Toni e um corpo no chão, coberto por jornais, completamente desfigurado, em função de uma forte colisão com um caminhão de nitrogênio.

O corpo nunca foi identificado...


Vera Celms


domingo, 12 de julho de 2009

AQUI JAZ, NINGUÉM...



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Ruas escuras,
Sombrias... assombradas,
Assombrosas,
Vadias ruas vazias,
Cobertas de nuvens e intenções ,
De vergões,
Das batidas dos ventos frios e violentos,
Das enxurradas,
Das enxadas,
Das roçadas, das roçassões,
Cobertas de hematomas,
Marcadas por zonas,
De meretrício popular,
De martírio secular,
Cheios de marcas de sangue,
De causas tantas,
De mortes francas
Violência estampada nas folhas,
Das árvores,
Dos jornais,
Dos obituários,
Das colunas sociais
Das paginas policiais,
Cheias, as ruas de marginais,
Os fios de pardais,
De pombas... de urubus...
De ratos transversais,
De insetos, nojentos,
De tantos insetos,
Moscas, baratas, varejeiras,
Mulheres carpideiras,
Nos velórios,
Nos sanatórios,
Nos sonhos transitórios,
Nas valas,
Na rua escura e sombria,
Mais um corpo...
Coberto de jornal,
Mais um enterro marginal,
Mais um indigente,
Sem nome, sem sobrenome,
Sem pai, sem mãe,
Sem amores, sem paixão,
Sem reza... jaz aqui mais um pagão...
Aqui jaz... NINGUÉM...
Vera Celms
Licença Creative Commons
AQUI JAZ, NINGUÉM... de Vera Celms está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.


domingo, 5 de julho de 2009

MIRRUIAH


- Não, você não sabe o que está dizendo.

- Sei sim... era ele...

- Como pode ter certeza, você me disse que era um sonho...

- E era, mas tenho certeza que era ele.

Mirruiah tinha me contado há muito tempo aquele sonho.

Estava na rua, depois de ter saído do serviço, com um amigo, Natan, quando foi abordada na mesa do bar, pelo chinês.

Estava rindo com Natan e o chinês deve ter pensado que era dele que riam. Se aproximou dos dois, com ar nítidamente incomodado e apontando o dedo no nariz de Mirruiah disse:

- Você vai morrer... - e sumiu como por mágica.

Mirruiah não entendera muito bem, sentiu medo, mas tentou afastar aquela sensação,e comentou com Natan:

- Ah tá! Tudo bem, como vai lembrar de mim? Só aqui na Paulista, quantas loiras de olhos azuis não devem existir? Ou ele me mata agora, ou não vai me ver nunca mais. Como vai encomendar a minha morte, se não passo por aqui sempre? E riu novamente, nervosa. Quando levantou os olhos, o chinês estava diante deles, com uma câmera fotográfica na mão.

- Enko San, não, por favor... vamos negociar. Não estávamos falando de você. Não precisa fazer isso.

E antes que Mirruiah pudesse falar qualquer coisa a mais, o chinês bateu a foto e sumiu novamente, como que por mágica, deixando-a descontrolada na mesa do bar, com uma foto instantânea no colo. Acordou assustada.

Depois disso, Mirruiah voltou a sonhar novamente com o chinês, varias vezes. Sempre nas mesmas condições. Sempre ameaçando, batendo fotos, perseguindo, espiando.

Sempre em lugares públicos, acompanhada de amigos ou parentes. Uma das vezes Mirruiah estava com seu filho numa lanchonete da Faculdade e lá estava o chinês novamente bravo, olhando torto para ela, batia uma foto jurando-a de morte e sumia.

Era sim um sonho recorrente, de quando em quando acontecia. As vezes demorava, ela chegava quase a esquecer e de repente, lá estava o chinês de novo povoando os seus sonhos.

Andava mesmo muito preocupada, pois voltava a acontecer de forma mais intensa e freqüente no ultimo mês. Sentia medo, andava apavorada, sentia-se vigiada o tempo todo, por todos os lugares. Tinha as vezes a impressão de estar sendo seguida. As vezes estava andando e se virava de repente, como quem fosse flagrar alguém tentando lhe golpear pelas costas.

Mal conseguia dormir. Quando conseguia, acordava assustada, suando, pálida, tremendo, com expressão de pavor e no momento seguinte não se lembrava de nada e também não conseguia voltar a dormir.

Sentia fortes dores de cabeça, acho que até por não conseguir descansar, não comia direito, não conseguia se concentrar em mais nada, se afastou dos amigos todos.

Achei melhor que procurasse um médico, um psiquiatra, ou um psicólogo. Ela falava que não era nada, que devia procurar um especialista em sonhos, dizendo que aquilo devia ser alguma coisa da cabeça dela e logo fugia do assunto.

O que mais me intrigava, é que algumas das pessoas que estavam com ela em alguns desses sonhos, relatavam no dia seguinte terem sonhado com ela também. Não necessariamente nas mesmas condições do sonho, mas sonhavam com ela em situações de fuga, se escondendo, correndo...

Mirruiah chegou a marcar consulta com um psiquiatra para o final do mês.

Mais de uma vez, andava pela rua com ela e parecia procurar alguém na multidão, olhava em volta, como se soubesse estar sendo vigiada o tempo todo e nada via.

Sentia dó dela, demonstrava um certo desequilíbrio mesmo nos últimos tempos. Chorava por qualquer coisa, as vezes brincadeiras inocentes com colegas do trabalho eram motivo suficiente para Mirruiah acabar chorando. Se alguém perguntasse alguma coisa duas vezes, questionando alguma resposta sua, chorava dizendo que ninguém acreditava nela.

Evitava ficar sozinha a noite. Seu filho, nos finais de semana, dormia na casa da namorada, e Mirruiah dormia na casa da sua irmã, ou trazia uma amiga para dormir na sua casa, ou seu sobrinho. Enfim, procurava ter sempre alguém por perto durante as noites.

Até que na manhã de terça-feira, Mirruiah acordou chorando depois de mais um daqueles sonhos. Ligou pra mim assim que acordou, perguntando como eu estava, e me contou que tinha sonhado comigo dessa vez e me relatou mais um episodio, em que o chinês a ameaçava, fotografava e sumia de novo.

Só que desta vez, Mirruiah ficou mais assustada do que normalmente, ou fui eu que senti isso por ter sido eu quem a acompanhava desta vez, não sei bem.

Fazia vários dias que não conseguia dormir. Talvez sentisse medo de dormir, achava sempre que sonharia de novo, que acordaria apavorada de novo. Só que na terça resolveu tomar um calmante e dormir novamente. Rafael, seu filho, estranhou, pois a mãe, depois que falou comigo ao telefone, ao invés de ir para o trabalho, tomou o remédio e dormiu, contrariando o que fazia sempre.

Não acordou mais.

Hoje pela manhã, Rafael me procurou pra me entregar a foto instantânea que sua mãe batera comigo na lanchonete da Av.Paulista, aquela onde ela sempre ia quando saia do serviço.

Eu nunca fui àquela lanchonete e nunca tivemos nenhuma foto juntas. Meu Deus!!!

Vera Celms