domingo, 14 de junho de 2009

PÂNICO ( CAP.XII - FINAL )


XII


Não consigo dormir a horas. Chove a cântaros, troveja, relampeia e a escuridão só é quebrada pelo clarão dos raios. Lá longe, um cachorro uiva como um lobo aflito, ora triste, soturno.

De repente, num dos clarões , localizo um vulto sentado na beira da minha cama. Olho de novo, lá está ele. Escondo a cabeça sob o travesseiro e finjo não ver. Não adianta, ele continua lá. Apavorada tento dormir e o vulto sereno insiste em ficar. Viro para o outro lado e ele continua lá. Finjo dormir e la está ele com um grande pássaro preto no colo. Alisa a cabeça do pássaro, ora seu corpo, sua asa, demonstrando não ter pressa nem preocupação.

Naquela cena, o tempo é eterno, como meu medo.

Procuro relaxar sem sucesso. Resoluta tento me fingir de despreocupada ou fazer de conta que não o vejo... Inútil, ele permanece irredutível.

Aos poucos vou me acostumando àquela situação apesar de tão desconfortável.

De repente:

- não adianta disfarçar. Sei que me vê. Aliás, já estive tantas vezes aqui, já te acompanhei por tanto tempo que não me custaria acompanhá-la por toda a vida.

- Quem é você?

- Eu sou senão a resolução dos seus problemas, a sua pior aflição.

- Como assim?

- Tenho todas as respostas que procura há tanto tempo . Agora, só depende de você, querer ou não ouví-las.

- Problemas? Disse eu temerosa, pensando em tudo o que venho passando nos últimos tempos.

- Não os tem? Posso simplesmente deixar para lá e o desfecho será o mesmo...

- desfecho?

- Claro! Ou você acha que tudo acontece por acaso?

- Do que você está falando, me deixa dormir. Vai embora.

- Aí já não dá para obedecer. Ficar eu vou, só dependem de você as condições em que vou ficar.

- Eu vou dormir.

- Não vai não...

- como não? O que pretende?

- Pretendo te mostrar a realidade e te contar algumas coisas.

Já irritada e apavorada, travei contato com aquela sombra escura no quarto escuro . Era inconcebível aquela situação, mas não tive como fugir.

- tudo bem, se não tenho escolha...

- boa menina, você vai ver que fica bem mais fácil com cooperação...

Me fiz de emburrada e pronta para ouvir, mas estava completamente gelada, apavorada, paralisada.

- há quanto tempo pensa estar ficando louca?

- Não sei.

- Sabe sim!!! pense bem...

- tempo não sei, só sei que muita coisa vem acontecendo e não sei como se explicam.

- Desmaiou, acordou em outro lugar. Amanheceu, levantou, foi trabalhar e acordou de novo em casa diante do espelho...

- foi você quem fez isso comigo?

- Fazer eu não fiz, mas digamos que participo da realização dos acontecimentos.

- E seu braço e perna continuam amortecidos?

- Continuam. O que é que você tem com isso?

- Mal educada a menina...

- mal educado é você que não me deixa dormir. Veio para me deixar louca?

- Louca? Não!!! você não está louca .. vem cá eu vou te mostrar.

- Onde você quer que eu vá a esta hora?

- Lugar algum, você não vai sair da sua caminha. Feche os olhos...

- o que você vai fazer?

- Nada, só feche os olhos e vai ver claramente...

Fechei os olhos apavorada e de repente estive diante de uma cena que jamais imaginei ver. Meu corpo sem vida no asfalto. Pulei e abri os olhos...

- o que é isso? Que brincadeira é essa?

- Brincadeira? Feche os olhos, não vai doer de novo. Você vai começar a entender porque acha que as pessoas te ignoram, porque choram, porque desmaia num lugar e acorda em outro, porque não sente seu braço e perna. Vai ficar mais fácil entender .

Fechei os olhos.

- tá vendo? Naquele dia que você saiu para o almoço e quando retornou ninguém te deu importância, você foi atropelada. Naquelas noites em que acordava perdida no quarto ou em casa, você estava sendo preparada para o momento e o restante foi entre o coma e a sua morte.

- M O R T E???

- Sim, você ficou algum tempo em coma no hospital até morrer. Olhe bem para o seu corpo ...

Olhei pela ultima vez e vi que meu braço e perna não estavam mais no meu corpo, mas o lado dele esfacelados. O caminhão decepou meus membros que ficaram ali.

- meu Deus!!!

- entendeu agora?

- Entender? Eu não entendo nada. Vou deitar e tentar acordar. Deve ser outro pesadelo...

- não, não é pesadelo, é real. Você morreu, aquele é seu corpo e agora eu vou cuidar de você.

De repente sumiu tudo de novo. Comecei a ouvir vozes, choros, gemidos, gritos, uivos, urros... O QUE É ISSO...

Olhei em torno de mim e vi gente desesperada, com membros decepados, com feridas abertas, loucas, nuas, em farrapos, deformadas. O ar cheirando a podre. É como se tivesse vivendo no esgoto. Perto de mim era um vai-vém incessante de vultos de gente, de animais e alguns tão monstruosos que aí entendi o que era loucura, entendi o que é o inferno, entendi afinal, que estava no UMBRAL.

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