domingo, 21 de junho de 2009

RENÓQUIO


Lugar estranho aquele. Parecia uma cidade de estória em quadrinhos. Era praticamente um esboço, um rascunho, um projeto de cidade fantasma.

A primeira vista era um lugar bonito, porém desabitado. Andei por quase uma hora e não encontrei nenhum tipo de movimento que não do vento na vegetação. Em seguida pude verificar alguns pássaros voando ao longe. Eram pássaros pretos que, sinceramente, só se assemelhavam a urubus. Era um lugar de certa forma, assustador.

Fazia bastante tempo que estava andando, não sei bem o que procurava, entretanto, já sentia o corpo cansado e a respiração ofegante.

Encontrei um lugar gramado, à sombra, próximo de umas pedras grandes e me senti seguro para recostar o corpo. Apesar de não ter visto uma viva alma até agora, mas o fato de estar fora do campo de visão geral fez-me sentir a vontade. Acabei adormecendo profundamente...

Olhei ao redor do lugar e nada. Olhei de cima do rochedo e nada. Olhei da beira do penhasco e nada. Meu Deus! Seria eu o único sobrevivente naquele lugar inóspito?

Era capaz de ouvir o vento sussurrando aos meus ouvidos. Era capaz de ouvir minha respiração, como nunca havia observado antes.

De repente ao longe comecei a ouvir vozes. Por um momento experimentei algum alívio em saber que haviam mais pessoas no lugar. Continuei andando e não via ninguém. Ouvia vozes que se mantinham à mesma distância por mais que me distanciasse ou aproximasse de qualquer coisa ou lugar.

Começava a desconfiar que as vozes estavam na minha cabeça, na minha imaginação. Estaria eu criando essa situação involuntariamente?

Aos poucos comecei a me acostumar com aquele barulho, que começou a parecer o som de abelhas voando.

.2.

Caminhava, caminhava e a paisagem não mudava, como se estivesse sobre uma esteira rolante. Entrei repentinamente numa área de sombra intensa. Olhei para cima, para os lados e o que via não entendia muito bem.

Seriam nuvens de tempestade? Seria outro fenômeno climático? Por um momento achei que fossem guarda-chuvas pequeninos e espessos, muito espessos em torno de mim.

Senti como se o chão fosse um tapete almofadado e ‘nervoso’, que se movia sob meus pés. Era uma sensação muito estranha.

Aos poucos entendi que estava sendo carregado por alguma coisa que não via, mas que se assemelhava a uma esteira rolante mesmo. Prestando atenção, as vozes que ouvia, vinham por debaixo daquele ‘chão nervoso’

Sentia agora um cheiro semelhante a mofo, que irritava meu nariz e olhos. Tentei descer daquele meio de transporte duvidoso, mas não via fim naquilo, não havia por onde e nem de onde descer.

Bem mais a frente, caminhava um ‘batalhão’ de pequenos homens, que provavelmente eram responsáveis pelas vozes que ouvia durante a caminhada.

Eram anões, que se seguiam de cachorros em guias curtas. Uma legião deles, praticamente cercava o local em todas as direções, e os cachorros faziam com que o barulho das vozes parecessem zunidos ensurdecedores.

Comigo não falavam e eu não entendia nenhuma palavra que era dita, provável que fosse um idioma local.- Meu Deus! Que lugar seria esse? - Era a única coisa que conseguia formular naquele momento em meus pensamentos.

Eu era ‘a presa ’carregada para dentro de um formigueiro? Aquela zona de sombra, em que entrei, seria já o formigueiro? – nunca imaginei me sentir assim, que sensação horrorosa!!!

Eu andava indefinidamente por sobre aquela esteira viva, não via fim, não tinha horizonte diante de mim, e o caminho já percorrido ficava pra trás invisível e perdido, como se fosse um túnel escuro.

Estava apavorado!!! Não sei se foi pelo medo, por causa daquele cheiro estranho ou algum tipo reação provocada, mas perdi os sentidos.

Acordei, sem saber quanto tempo havia passado. Perdi completamente a noção do tempo. Afinal, a paisagem não mudava, a luz não mudava, os sons não se alteravam e o medo também não.

Pude ouvir muitas vozes e nada entendia. Perdi os sentidos de novo.

Quando recobrei os sentidos, tinha noção do ocorrido, sem saber como, mas agora, tudo estava mais claro. Pouco compreensível, porém mais claro.

Aquela era uma cidade, digamos, lúdica. Lembro-me, quando criança, de ter lido um livro por nome ‘Aventuras de Gulliver’ e nesse caso, eu seria o próprio gigante aprisionado.

Ali, o pior de todos os erros era a mentira. Toda vez que alguém falasse alguma, brotavam do chão, cogumelos gigantes que impediam a passagem da luz do dia. Os anões andavam então, por debaixo desses cogumelos e eu, pelo meu tamanho, por cima, o que me dava a impressão de estar sendo carregado por eles. Na verdade, não fossem esses cogumelos, extremamente fortes e resistentes, estaria eu pisoteando aquela legião de baixinhos.

Fui então entendendo que meus desmaios tinham a ver com a substância exalada por aqueles cogumelos, o que fazia de mim, praticamente um bêbado caminhando.

Pelo que parecia, eles não tinham nenhuma intenção de me atacar, a menos que fosse por defesa, e eu da mesma forma.

Não sei se eu representava algum perigo para eles, por isso preferia não ser visto, se isso realmente pudesse acontecer.

Aquela ‘lei’ da mentira tinha de funcionar pra mim também a menos que fosse somente crendice, ou cultura local. Naquele momento valia tentar.

Comecei então a dizer coisas absurdas, que eu tinha certeza serem mentiras, e comecei a observar que os cogumelos se alastravam, como nuvem de gafanhotos, me permitindo continuar andando por sobre eles sem provocar-lhes nenhum mal.

A uma certa distância, pude observar uma floresta densa, que se avolumava ainda mais à frente, seguida provavelmente, do que parecia ao longe, um morro muito íngreme. Era de fato o lugar mais inóspito que havia conhecido em meus 20 anos de vida. Nunca vi nada parecido nem em filmes de ficção.

Parei diante daquele obstáculo, inicialmente intransponível, para tentar entender como poderia vencer mais aquela barreira, e os cachorros vinham bravios na minha direção. Percebi que a única saída talvez fosse matá-los, e eu não queria, sempre amei cachorros.

Foi então que me lembrei que, quando era criança, mentia para não apanhar e acabava apanhando por mentir. Àquela época era um mentiroso astuto, conhecido como RENÓQUIO (mistura do meu nome –Renato- com Pinóquio), que havia esquecido com o decorrer dos anos.

Comecei então a inventar histórias mirabolantes e mentirosas e os cogumelos começaram a cobrir o local por todo lado, e um sobrepondo o outro, formando então umas espécies de ‘caramanchões’ que enfim, utilizei como degraus, para escalar aquele obstáculo.

Terminei de subir o morro depois de algumas horas. Quando acordei estava tomado pela transpiração, com a respiração extremamente ofegante, tentando dar algum significado, ainda que só por analogia àquele sonho tão perturbador. Ufa! Que bom que foi só um sonho, ou teria sido um pesadelo? Ou teria sido um transe, uma visão?

Vera Celms


domingo, 14 de junho de 2009

PÂNICO ( CAP.XII - FINAL )


XII


Não consigo dormir a horas. Chove a cântaros, troveja, relampeia e a escuridão só é quebrada pelo clarão dos raios. Lá longe, um cachorro uiva como um lobo aflito, ora triste, soturno.

De repente, num dos clarões , localizo um vulto sentado na beira da minha cama. Olho de novo, lá está ele. Escondo a cabeça sob o travesseiro e finjo não ver. Não adianta, ele continua lá. Apavorada tento dormir e o vulto sereno insiste em ficar. Viro para o outro lado e ele continua lá. Finjo dormir e la está ele com um grande pássaro preto no colo. Alisa a cabeça do pássaro, ora seu corpo, sua asa, demonstrando não ter pressa nem preocupação.

Naquela cena, o tempo é eterno, como meu medo.

Procuro relaxar sem sucesso. Resoluta tento me fingir de despreocupada ou fazer de conta que não o vejo... Inútil, ele permanece irredutível.

Aos poucos vou me acostumando àquela situação apesar de tão desconfortável.

De repente:

- não adianta disfarçar. Sei que me vê. Aliás, já estive tantas vezes aqui, já te acompanhei por tanto tempo que não me custaria acompanhá-la por toda a vida.

- Quem é você?

- Eu sou senão a resolução dos seus problemas, a sua pior aflição.

- Como assim?

- Tenho todas as respostas que procura há tanto tempo . Agora, só depende de você, querer ou não ouví-las.

- Problemas? Disse eu temerosa, pensando em tudo o que venho passando nos últimos tempos.

- Não os tem? Posso simplesmente deixar para lá e o desfecho será o mesmo...

- desfecho?

- Claro! Ou você acha que tudo acontece por acaso?

- Do que você está falando, me deixa dormir. Vai embora.

- Aí já não dá para obedecer. Ficar eu vou, só dependem de você as condições em que vou ficar.

- Eu vou dormir.

- Não vai não...

- como não? O que pretende?

- Pretendo te mostrar a realidade e te contar algumas coisas.

Já irritada e apavorada, travei contato com aquela sombra escura no quarto escuro . Era inconcebível aquela situação, mas não tive como fugir.

- tudo bem, se não tenho escolha...

- boa menina, você vai ver que fica bem mais fácil com cooperação...

Me fiz de emburrada e pronta para ouvir, mas estava completamente gelada, apavorada, paralisada.

- há quanto tempo pensa estar ficando louca?

- Não sei.

- Sabe sim!!! pense bem...

- tempo não sei, só sei que muita coisa vem acontecendo e não sei como se explicam.

- Desmaiou, acordou em outro lugar. Amanheceu, levantou, foi trabalhar e acordou de novo em casa diante do espelho...

- foi você quem fez isso comigo?

- Fazer eu não fiz, mas digamos que participo da realização dos acontecimentos.

- E seu braço e perna continuam amortecidos?

- Continuam. O que é que você tem com isso?

- Mal educada a menina...

- mal educado é você que não me deixa dormir. Veio para me deixar louca?

- Louca? Não!!! você não está louca .. vem cá eu vou te mostrar.

- Onde você quer que eu vá a esta hora?

- Lugar algum, você não vai sair da sua caminha. Feche os olhos...

- o que você vai fazer?

- Nada, só feche os olhos e vai ver claramente...

Fechei os olhos apavorada e de repente estive diante de uma cena que jamais imaginei ver. Meu corpo sem vida no asfalto. Pulei e abri os olhos...

- o que é isso? Que brincadeira é essa?

- Brincadeira? Feche os olhos, não vai doer de novo. Você vai começar a entender porque acha que as pessoas te ignoram, porque choram, porque desmaia num lugar e acorda em outro, porque não sente seu braço e perna. Vai ficar mais fácil entender .

Fechei os olhos.

- tá vendo? Naquele dia que você saiu para o almoço e quando retornou ninguém te deu importância, você foi atropelada. Naquelas noites em que acordava perdida no quarto ou em casa, você estava sendo preparada para o momento e o restante foi entre o coma e a sua morte.

- M O R T E???

- Sim, você ficou algum tempo em coma no hospital até morrer. Olhe bem para o seu corpo ...

Olhei pela ultima vez e vi que meu braço e perna não estavam mais no meu corpo, mas o lado dele esfacelados. O caminhão decepou meus membros que ficaram ali.

- meu Deus!!!

- entendeu agora?

- Entender? Eu não entendo nada. Vou deitar e tentar acordar. Deve ser outro pesadelo...

- não, não é pesadelo, é real. Você morreu, aquele é seu corpo e agora eu vou cuidar de você.

De repente sumiu tudo de novo. Comecei a ouvir vozes, choros, gemidos, gritos, uivos, urros... O QUE É ISSO...

Olhei em torno de mim e vi gente desesperada, com membros decepados, com feridas abertas, loucas, nuas, em farrapos, deformadas. O ar cheirando a podre. É como se tivesse vivendo no esgoto. Perto de mim era um vai-vém incessante de vultos de gente, de animais e alguns tão monstruosos que aí entendi o que era loucura, entendi o que é o inferno, entendi afinal, que estava no UMBRAL.

domingo, 7 de junho de 2009

PÂNICO ( CAP. VII A XI)


VII

Engraçado como tudo parece acontecer durante meu sono, ou no despertar. Acordo bem, mas meus sensores parecem desligados. Fico introspecta apesar de me sentir bem.

As palavras parecem difíceis a cada contato. Sinto vontade de ficar sozinha, isolada até que as palavras voltem.

Chego a pensar que de tantas, impedem o caminho quando se acumulam e ficam todas as palavras ali, paradas, congestionadas e carregadas, aguardando algo que as empurre.

Seria bom se pudessemos nos recarregar. Nosso “sistema fica inoperante”, fica difícil a comunicação. As pessoas as vezes não entendem e acham que é antipatia, frescura, ou sei lá...

Sinceramente, quando fico assim nem tento, nem quero entender as pessoas. Levo meu dia como se nada estivesse acontecendo até que acabe e bem ou mal, sempre acaba. Se tivesse escolha, queria morrer dormindo.

VIII

Odeio quando as pessoas me tratam com indiferença. Faço tanta questão de tratar as pessoas com atenção e fico “mordida” quando falo com as pessoas que não me respondem ou o fazem com indiferença.

É estranho quando as pessoas te encontram num momento, te tratam calorosamente e no momento seguinte como um mero desconhecido.

Outro dia, durante meu período de almoço, encontrei alguns companheiros de trabalho na recepção da empresa e todos conversavam animadamente . Cheguei, como sempre chego, brincado, conversando e tudo foi muito legal. Saí para almoçar e quando voltei o mesmo grupo continuava reunido e mal frui percebida.

Me trataram com tanta indiferença que acabei saindo de perto completamente inconformada. Deixa

!!!

IX

Hoje acho que desmaiei. Andava na rua e puft... ao chão...

Não sei quanto tempo fiquei ali, mas ao voltar do desmaio parecia que tinha passado uma eternidade e de repente, parece que eram somente instantes.

Estava leve, poderia flutuar, levitar, viajar. Nossa!!! que sensação maravilhosa, acho que vou desmaiar mais vezes...

Perder a consciência as vezes é bom. É como dormir .

Lembro-me da ultima vez que desmaiei. Foi em casa e acordei com uma bruta dor de cabeça. Parecia que o mundo havia entrado na minha cabeça. Acho que naquela vez não perdi a consciência, outra deve ter se fundido a minha, pois o peso era imenso, insuportável.

Por que será que desmaiamos? Será que é o plug que cai? Acho que durante meu sono devo desmaiar e acordar em outros lugares. Hoje quando voltei do desmaio, tinha lembranças de estar

em outro lugar e não ali onde acordei. Será que fui abduzida?

No mínimo, quando me ignoram, quando não me ouvem, ou fingem não me ouvir, devo estar vivendo um desmaio e as pessoas não me vêem. Será que tenho andado em outra dimensão?

As coisas parecem confusas, mas as vezes se explicam sozinhas.

Vou começar a beliscar as pessoas que me ignoram para saber se realmente não me vêem. E se eu estiver beliscando as pessoas que também vivem um desmaio? Elas sim vão gritar, ou reclamar, quem sabe até me bater. Será que sentiriam o beliscão?

Deixa para lá, se eu desmaiar de novo eu vejo.

X

Ouço vozes. Não somente as vozes que me rodeiam, mas várias vozes, parecem estar todas dentro da minha cabeça.

Os sons são tão fortes pra mim que chego a pensar que a cada veículo que passa na frente da minha casa serei chamada. Sempre acho que é alguém que chega me procurando.

As vezes estou sentada, prestando atenção em um filme e sempre tenho a impressão que se estiver com o volume baixo ouvirei melhor quando me chamarem e acabo me encontrando em pé na frente da janela e nunca é ninguém.

Também, porque ninguém vem me visitar? Estou tão sozinha!

Acham que estou doente, mas eu não acho.

Estou com a perna machucada, pois quando desmaiei machuquei o joelho e está difícil para levantar e olha eu aqui na frente da janela de novo... até meu filho ficou bravo, mas é inevitável.

Sentada no sofá ou lendo em meu quarto ouço barulhos pela casa que não consigo identificar. Será que os barulhos estão dentro da minha cabeça?

XI

Estou com medo de sair de casa. Acho que ando ruim da vista.

Vejo uma espécie de sombra, aliás, várias sombras, ou vultos e quando me viro, não é ninguém. Chego a ficar tonta, tamanha a movimentação que me rodeia.

A noite é ainda mais estranho, além dos vultos que costumo ver durante o dia, vejo também uns cachorros pretos sobre o asfalto da rua. Sempre estão nas ruas mais escuras. Vejo gatos pretos sobre as árvores, debaixo das escadas. Vejo olhos na escuridão como que me vigiando. É, acho mesmo que devo esta vendo coisas.

Evito sair principalmente a noite. Tenho medo. Sinto pessoas atrás de mim, como ameaça mesmo, como se fossem me atacar, me apunhalar pelas costas. Acelero o passo, olho para trás assustada e não vejo ninguém. Atualmente tenho andado depressa para ser menos observada.

Outro dia, me empurraram e eu caí e rolei a guia da calçada e não tenho sentido a minha perna e meu braço.

Tenho tentado falar com o pessoal em casa, mas eles só choram e nem me respondem. Que horror!!! não estou tão mal assim! Me sinto tão mal com toda esta situação...