sábado, 2 de maio de 2009

CHEGOU PELA JANELA


Meus pais sempre saiam para a missa por volta das 06:30 da manhá, e logo em seguida eu chegava do trabalho.
Relaxava um pouco, comia alguma coisa, tomava um banho e deitava para dormir. Era o tempo necessário para que o sono chegasse.
Naquele dia ainda tinha chegado um pouco mais cedo, pois era o dia das crianças, 12 de outubro e eu precisava fazer o que fazia todos os anos, e pra isso saia mais cedo do serviço. Sempre levava doces e balas na praça central, ao pé das árvores e oferecia as crianças cósmicas... era quase um ritual pra mim já há alguns anos... me sentia sempre muito bem com isso.
Naquela manhã já esperava sonhar com crianças como sempre... isso era normal.
Deitei relaxadamente e logo senti como se alguém me olhasse. Abri os olhos e vi naquele torpor do começo do sono, uma menina loira, de mais ou menos uns 8 anos, parada ao lado da cabeceira da minha cama, sorrindo veladamente, com um vestidinho branco com flores no cinto também de tecido, olhando fixamente pra mim.
Confesso que por um instante senti um calor subir pelas minhas costas.
Fechei os olhos, voltei a abri-los e não havia mais ninguém lá. Fiquei tranqüila e adormeci.
Não sei quanto tempo passou, escutei o barulho do portão abrindo. Era um portão de ferro, alto e rangia ao abrir, como aqueles dos filmes de terror.
Muito ensonada, parei para ouvir, e escutei passos e o barulho das unhas do ruivão andando pelo quintal. Logo associei que minha mãe tivesse voltado.
Alguém falava com o ruivão, voz feminina. Como ele não latia, imaginei fosse alguém conhecido. Logo em seguida ouvi som de água no tanque, lá fora, que era de metal, por isso o barulho muito característico era inconfundível.
Os passos foram ficando mais perto, mais perto, até pararem diante da minha janela, onde ficava a caixa do ar condicionado.
Meus sobrinhos sempre subiam lá quando queriam olhar pra dentro do quarto.
Ouvi por um momento alguém subindo na caixa e parei para prestar atenção. O sono era maior do que a atenção, mas ouvi claramente, um par de pés, como que de tênis, batendo no chão, como se tivesse pulado a janela pra dentro, e em seguida senti meu colchão se mover, afundando, como se alguém houvesse se apoiado ou subido nele e aquela voz me perguntou:

- você é médica?

Minha cama ficava bem perto da janela defronte a porta do quarto.
Levantei apavorada, literalmente correndo, meio que de olhos ainda fechados, assustada, e fui para o quarto ao lado que era do meu irmão, e apavorada o chacoalhei para que ele acordasse:

- Junior, acorda, tem alguém no meu quarto, alguém entrou no meu quarto - gelada, quase tremendo;

Meu irmão correu para o meu quarto, com um soco inglês na mão, pronto para reagir contra o invasor. Chegou no meu quarto e não encontrou ninguém.
Foi a sala, ao quarto dos meus pais, ao banheiro, e ninguém encontrou em nenhum lugar. A porta estava trancada a chave sobre a geladeira como sempre.
Permaneci no quarto de meu irmão enquanto ele fazia a busca pela casa.
Ele destrancou a porta, foi ao quintal e depois de poucos minutos retornou.

- Larissa, não há ninguém dentro de casa, lá fora também não há ninguém. O ruivão está
dormindo pesado na casinha dele, o tanque está seco e sua janela fechada. Acho que você
sonhou, suas roupas brancas,de trabalho estão no varal, lá fora.

- não Junior, tenho certeza, senti meu colchão baixando, ouvi alguém falando comigo. Ouvi
passos, as patinhas do Ruivão, alguém subindo na caixa do ar condicionado e pulando pra
dentro do quarto, tenho certeza que ouvi a água correndo dentro do tanque. Será que fiquei
louca? Não estava dormindo ainda...

- pois é mana, ninguém, volte a dormir... você sonhou mesmo... – e voltou a dormir.

Não preciso nem dizer que dormir não voltei mais, não consegui até que meus pais voltassem da missa e mesmo assim, depois de muito tempo, dormi mas tive pesadelos e varios dias depois ainda...
Quem era? O que queria de mim? Era eu que precisava daquela figura, ou ela que precisava de mim? Será que foi só pra me assustar? Era sonho? Imaginação?
Prometo que se houver outra situação vou procurar enfrentar meu medo e perguntar... vou nada... nunca mais consegui dormir sem que meus pais estivessem em casa pela manhã... ai meu Deus!!!

Vera Celms

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