sábado, 30 de maio de 2009

PÂNICO (CAP. IV A VI)

IV


Ando muito distraída, momentos de profunda distração, como se dormisse de olhos abertos.
Pareço amortecida, como se dopada. Compreensão em alguns momentos fica como as sensações, completamente alheias de mim. Acho que estou enlouquecendo.
Falo com pessoas que não me respondem, não me ouvem ao telefone, acho que devo estar transparente ou invisível. As pessoas, não sei porque, estão me ignorando.
Passo pelas pessoas na rua que esbarram em mim com força e não me pedem desculpas, nem me olham sugerindo desculpas e continuam andando. Fico eu no meio da calçada rodopiando, girando em meu próprio eixo, esbravejando indignada.
- Ô bando de gente mal educada...
Passo pelos amigos que fingem não me reconhecer. Outro dia estava no trem e de repente, da porta do fundo do vagão vi um monte de gente conhecida vindo na minha direção, conversando,. Rindo, sorrindo.



Ninguém me viu, fui como que engolida por um Tsuname. Me perdi no meio daquela multidão e...

V


Novamente... abro os olhos, olho em torno de mim e não reconheço nada. O lugar é desconhecido...
- Como vim parar aqui?
Ninguém ao meu lado, ninguém em lugar nenhum. Provavelmente nunca estive aqui antes...
Levanto, caminho pela casa e de repente a consciência... é a minha casa. Sei onde fica cada um dos cômodos, poderia encontrá-los de olhos fechados sem esbarrar em nada. Sei onde fica cada botão de luz, onde ficam os copos, o café, as minhas gavetas. Sim, definitivamente é a minha casa. Desconfortável , volto a dormir.


VI

Levantei, me arrumei ligeira. Tomei um cafézinho e saí no “piloto automático”.
Estava tão bem que tudo parecia fácil. O caminho de casa até o trabalho, nem senti.
As dores que normalmente tenho ao me levantar, provavelmente consequências da coluna, não só não senti, como nem lembrei que jamais tivesse tido.
Tudo bem que não conversei com ninguém durante o percurso, também não houve nenhum motivo.
Me lembro vagamente de ter passado pela catraca da estação de trem , de ter me sentado, o que normalmente não acontece, vou em pé todos os dias.
Me irritei um pouco com aquele homem no trem, tão confortável no banco e eu tão apertada. Tudo bem que o moço é cego, mas nem por isso precisava usar o banco tão completamente. Era ele e mais uma sacola que tomavam mais da metade do banco.
Enfim, tratava-se de um cego, achei melhor não reclamar, me ajeitei como pude. Estou tentando melhorar. Não vou pegar no pé de um cego logo cedo.
Durante o caminho fui recapitulando minha manhã, tão fora do meu normal. Lembrei não ter passado nem um lápis, nem um rímel nos olhos. Odeio estar sem maquiagem e sem os brincos também. Brincos sempre tenho um par de reserva na bolsa para essas eventualidades e maquiagem também.
Cheguei no escritório com algum tempo adiantado ainda. Peguei o elevador.

- Bom dia! Bom dia!

Ninguém me respondeu, também, acontece com tanta frequência que nem liguei...
Cheguei no banheiro, abri a bolsa, peguei meu aparato todo enquanto aguardava a pessoa que usava o espelho terminar e quando cheguei diante do espelho... tudo sumiu...
Como se eu tivesse desmaiado, tudo sumiu e com a minha tão frequente e conhecida dor nas pernas e nas costas, estava eu diante do espelho do banheiro da minha casa.
Aih meu Deus! Atrasada de novo...

domingo, 17 de maio de 2009

PÂNICO (CAP. I A III)



I

Acordei sobressaltada... atrasada de novo!!!

Meu Deus, de novo atrasada...

De repente um estalo. Estou desempregada.

Saí pela casa buscando algum referencial. Não sabia que dia era, nem se era manhã ou tarde. Esse horário de verão sempre me confunde mesmo.

Passei pelo quarto de meus filhos e os dois dormiam.

Meu Deus, não bastasse eu deprimida, os meninos também?

- Vamos filho acorde, vamos, todo mundo dormindo a uma hora dessas?

- Mas mãe!!!

- Vamos, levante, depois a noite ninguém dorme, fica todo mundo moscando pela casa até altas da madrugada, vamos!!!

- Mãe, que é que você tem? É sábado , seis e meia da manhã...

- Não filho, são seis e meia da tarde.

- Não mãe, são seis e meia da manhã. Vem cá...

Ligou a TV e me mostrou a programação do jornal que começa as seis horas da manhã.

- Viu mãe? Posso voltar a dormir agora?

- Pode filho...

Não totalmente convencida ainda, parei diante da janela, olhei demoradamente e tudo me mostrava realmente uma bela manhã de verão.

Meio como um moleque insatisfeito, saí “chutando pedras”, resmungando, xingando a mim mesmo. Voltei para cama. Demorei um pouco e adormeci. Acordei sobressaltada por um pesadelo terrível e não quis dormir mais.

Não era a primeira vez que isso acontecia, acordar assustada, completamente perdida e deslocada, sem nenhum referencial nem motivos para entender.

Da última vez cheguei a me arrumar e sair de casa para o trabalho, durante o caminho, todo o comércio sempre aberto nos outros dias, estava fechado, a vegetação molhada de orvalho...

- Gente! Que é isso? Nunca vi assim – conversava eu comigo mesmo.

Cheguei no trabalho e tudo fechado. A custo me convenci que era manhã e eu só trabalhava a tarde. Voltei para casa e tentei dormir sem sucesso, é claro!

II

Acordei transpirando muito. Não estava calor, nem tampouco frio, mas eu suava intensamente. As cobertas já estavam perdidas pela cama e meus sentidos pelo quarto, ou pela casa.

Um profundo vazio e um peso no peito como se tivesse engolido uma âncora.

Custei a me localizar no escuro. O interruptor da luz do outro lado do quarto. Meu abajour estava fora da tomada que estava sendo usada por outro aparelho. E agora? Onde está o interruptor, onde estavam os móveis, onde estava eu?

Levantei tateando o caminho tentando um reconhecimento, até que dei contra o espelho, pois onde imaginei ser uma porta, era um espelho e o susto foi inevitável. Fiquei mais confusa ainda.

Parei no meio do quarto como um andróide desligado e fiquei olhando até tomar coragem de me mover novamente.

De repente, fui na direção oposta, supondo ser a porta diante do espelho e dei de encontro a porta do armário que estava aberta e perdida em meu próprio quarto, desolada, me pus a chorar.

Depois de algum tempo consegui afinal ir ao banheiro. Dormi depois com a luz acesa e estranhei a situação ao acordar sem me lembrar do ocorrido de imediato.

III

Medo não tenho de quase nada, a exceção de alguns insetos, como barata e de ser ignorada, ou esquecida.

Entendo que a LEI DO RETORNO está aí para quem souber e quiser entender e respeitar. Eu sempre fui, ou sempre julguei ser gente boa. Tudo bem que seja a minha opinião, mas conta...

O mundo do bem não admite ficar em cima do muro. Ou você faz o bem, ou não basta não fazer o mal, não existe neutralidade.

Confesso que jamais fui chegada a ações solidárias, a comprar a briga de ninguém, nem distribuir sopão na madrugada. Sempre me meti muito com a minha vida, tanto que sou adepta a que Deus deu uma vida para cada um e que por isso cada um deve cuidar da sua. Ajudo se alguém me pedir, mas não sou esforçada nesse sentido. O mundo do bem é muito mais do que eu faço ou procuro fazer, é dar a mão a quem precisa sem ter de pedir, é fazer o bem sem olhar a quem e esta “propriedade” não tenho desenvolvida.



Vera Celms ...continua

sábado, 2 de maio de 2009

CHEGOU PELA JANELA


Meus pais sempre saiam para a missa por volta das 06:30 da manhá, e logo em seguida eu chegava do trabalho.
Relaxava um pouco, comia alguma coisa, tomava um banho e deitava para dormir. Era o tempo necessário para que o sono chegasse.
Naquele dia ainda tinha chegado um pouco mais cedo, pois era o dia das crianças, 12 de outubro e eu precisava fazer o que fazia todos os anos, e pra isso saia mais cedo do serviço. Sempre levava doces e balas na praça central, ao pé das árvores e oferecia as crianças cósmicas... era quase um ritual pra mim já há alguns anos... me sentia sempre muito bem com isso.
Naquela manhã já esperava sonhar com crianças como sempre... isso era normal.
Deitei relaxadamente e logo senti como se alguém me olhasse. Abri os olhos e vi naquele torpor do começo do sono, uma menina loira, de mais ou menos uns 8 anos, parada ao lado da cabeceira da minha cama, sorrindo veladamente, com um vestidinho branco com flores no cinto também de tecido, olhando fixamente pra mim.
Confesso que por um instante senti um calor subir pelas minhas costas.
Fechei os olhos, voltei a abri-los e não havia mais ninguém lá. Fiquei tranqüila e adormeci.
Não sei quanto tempo passou, escutei o barulho do portão abrindo. Era um portão de ferro, alto e rangia ao abrir, como aqueles dos filmes de terror.
Muito ensonada, parei para ouvir, e escutei passos e o barulho das unhas do ruivão andando pelo quintal. Logo associei que minha mãe tivesse voltado.
Alguém falava com o ruivão, voz feminina. Como ele não latia, imaginei fosse alguém conhecido. Logo em seguida ouvi som de água no tanque, lá fora, que era de metal, por isso o barulho muito característico era inconfundível.
Os passos foram ficando mais perto, mais perto, até pararem diante da minha janela, onde ficava a caixa do ar condicionado.
Meus sobrinhos sempre subiam lá quando queriam olhar pra dentro do quarto.
Ouvi por um momento alguém subindo na caixa e parei para prestar atenção. O sono era maior do que a atenção, mas ouvi claramente, um par de pés, como que de tênis, batendo no chão, como se tivesse pulado a janela pra dentro, e em seguida senti meu colchão se mover, afundando, como se alguém houvesse se apoiado ou subido nele e aquela voz me perguntou:

- você é médica?

Minha cama ficava bem perto da janela defronte a porta do quarto.
Levantei apavorada, literalmente correndo, meio que de olhos ainda fechados, assustada, e fui para o quarto ao lado que era do meu irmão, e apavorada o chacoalhei para que ele acordasse:

- Junior, acorda, tem alguém no meu quarto, alguém entrou no meu quarto - gelada, quase tremendo;

Meu irmão correu para o meu quarto, com um soco inglês na mão, pronto para reagir contra o invasor. Chegou no meu quarto e não encontrou ninguém.
Foi a sala, ao quarto dos meus pais, ao banheiro, e ninguém encontrou em nenhum lugar. A porta estava trancada a chave sobre a geladeira como sempre.
Permaneci no quarto de meu irmão enquanto ele fazia a busca pela casa.
Ele destrancou a porta, foi ao quintal e depois de poucos minutos retornou.

- Larissa, não há ninguém dentro de casa, lá fora também não há ninguém. O ruivão está
dormindo pesado na casinha dele, o tanque está seco e sua janela fechada. Acho que você
sonhou, suas roupas brancas,de trabalho estão no varal, lá fora.

- não Junior, tenho certeza, senti meu colchão baixando, ouvi alguém falando comigo. Ouvi
passos, as patinhas do Ruivão, alguém subindo na caixa do ar condicionado e pulando pra
dentro do quarto, tenho certeza que ouvi a água correndo dentro do tanque. Será que fiquei
louca? Não estava dormindo ainda...

- pois é mana, ninguém, volte a dormir... você sonhou mesmo... – e voltou a dormir.

Não preciso nem dizer que dormir não voltei mais, não consegui até que meus pais voltassem da missa e mesmo assim, depois de muito tempo, dormi mas tive pesadelos e varios dias depois ainda...
Quem era? O que queria de mim? Era eu que precisava daquela figura, ou ela que precisava de mim? Será que foi só pra me assustar? Era sonho? Imaginação?
Prometo que se houver outra situação vou procurar enfrentar meu medo e perguntar... vou nada... nunca mais consegui dormir sem que meus pais estivessem em casa pela manhã... ai meu Deus!!!

Vera Celms