domingo, 28 de agosto de 2016

FOI-SE O RISO





Antigamente era jovem
Muito antigamente era feliz
Sorria escancarado,
Sorria até encarcerado, subjugado, humilhado,
Era um riso tímido, sem jeito, sem saída
Um quê de pureza,
Brio dos honestos, castos, limpos
Alma, aura transparente puxada ao lilás
Tenro olhar, a  emprestar brilho a vida
Abraço franco, pisar decidido e reto,
No entanto, depois de tantos desencantos,
apesar de tudo: viveu
Foi provado, provocado, burlado, sacaneado,
Tombou, levantou e foi derrubado
Preso, torturado, amordaçado,
Corrompido, mau julgado, sentenciado
Perdeu graça a vida,
Perdeu todos os abraços,
O andar cambaleou
A verdade lhe faltou aos olhos,
que já não tinha mais brilho pra emprestar a vida
Alma embaçada, aura corrompida e alquebrada,
Riso agora, nem ensaiado, talvez arrancado
Endurecido, empedernido, não sabe mais
O que antes era frouxo, um tanto alvar,
agora, tá mais para um grasnar
Rompe-lhe o silencio, vinca-lhe as faces e duro, some
O que era satisfação, agora dói,
Nem lágrimas lhe veem aos olhos,
parados no nada, no longe, em lugar nenhum...

Vera Celms
Licença Creative Commons
FOI-SE O RISO de Vera Celms está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

IMPERDOADA





Não quero andar pela vida, deixando para trás maus caminhos
Protagonista da escuridão
Não preciso sentir o calor das suas lagrimas nas mãos,
para saber-te vivo...
Sei dos descaminhos
Sei do mal causado
Orgulho, soberba, desamor
Pouco importa o nome
Importa o estrago
Notado somente porque os cães ladraram
Sem retorno, sem consolo, sem perdão

Vera Celms
Licença Creative Commons
IMPERDOADA de Vera Celms está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

domingo, 5 de junho de 2016

HISTORIA JÁ CONTADA





O implacável por vir,
Inevitável,
Não havia por e nem pra onde fugir,
Sem saídas, sem atalhos, ou esconderijos
Paisagem desoladora
O fel vinha à boca como a tenebrosa noite
Turva visão de lágrimas
Passos incertos e duros
Pedregoso caminho, despenhadeiro
Solidão sob sangrentos pés
Sem bússola ou biruta
Sem noção ou direção,
Guiados pela fé ...
Sabendo que mesmo sem ver,
a linha de chegada continuava lá
Correr sem parar e sem sentir
Acionado o piloto automático
Minguadas forças,
Esquivando-nos da corda,
do fio da navalha,
Da sentença fatal,
Argumentando verdades pela merecida vitoria
Desabilitar os degraus da forca,
em favor dos degraus do pódio,
e só então o direito ao adormecer...

Vera Celms
Licença Creative Commons
HISTORIA JÁ CONTADA de Vera Celms está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

sábado, 21 de maio de 2016

PAPEL E CANETA, POR FAVOR





Quem ameaça a nós, somos nós...
Não somos loucos
Não flertamos com o abismo gratuitamente
Se o olhamos, é porque o abismo nos olhou primeiro
Pensamos que os vivos carregam arrependimentos,
E quantos arrependimentos os mortos levam?
Entre o além e a realidade, proferem suas culpas, chorando
As paredes, atravessadas por fantasmas,
escondem confissões inteiras,
sussurradas em madrugadas frias, insones, solitárias
E como o abismo,
a lâmina do punhal brilhando sobre a mesa,
flerta...
Não precisa desaferrolhar as portas,
Nem entreabrir as janelas
Chegarei como um pensamento, vinda de dentro,
Sutil e silenciosa
Como a aragem pelas frestas
Serei o som de uma folha de papel,
(escrita por mim), caindo da mesa
Como um perfume no repente da madrugada
Como uma lembrança forte e fogosa,
Papel e caneta,  por favor...

Vera Celms
Licença Creative Commons
PAPEL E CANETA, POR FAVOR de Vera Celms está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.